segunda-feira, 29 de junho de 2026

Fanfic - Eu não vou a lugar algum

 Esta fanfic é do jogo Best Served Cold. Saiu uma demo de uma continuação, Last Night Last Call que se passa muitos anos depois dos acontecimentos do primeiro jogo e, pasmem, o Peter está lá. Eu joguei um pouco da demo no Vem Aí da Steam que aconteceu esses dias e, por conta dos desdobramentos que aconteceram, a história do Peter e da bartender de Best Served Cold finalmente terminou de se formar na minha cabeça. Não é uma história com final feliz, mas é uma história. Espero que gostem!

A bartender estava ansiosa desde o último caso que ajudou a resolver. Não conseguia parar de pensar em Sandra e imaginar que tipo de relação ela e Peter tiveram no passado. Ela havia tentado convencer a outra que poderia continuar ali, em Bukovie, mesmo sendo responsável pelo ataque ao Vincent. Tudo se resolveria. Mas quando ouviu do próprio Peter sobre como Sandra estava dormindo em seu apartamento enquanto ele dividia o sofá com o cachorro, as histórias de quando eram jovens, os detalhes de como se sentia em relação a ela… Podia ser passado, mas havia uma dor quase palpável em suas palavras e seu semblante a convencera de que ele não estava sendo totalmente sincero em relação aos seus sentimentos. Talvez ele mesmo não tivesse certeza. Então ela fez a única coisa que podia: convencer Sandra a se afastar. Pelo bem de todos. Pelo bem dela mesma.

Mas, mesmo depois de ajudar o detetive Mertens a livrar Bukovie de várias pessoas más, ainda não conseguia se sentir segura. Pelo contrário; quando retornava do trabalho ilegal, andava com atenção redobrada perto de becos e esquinas, principalmente os mal iluminados. Naquela noite específica, não conseguia chacoalhar a sensação de que estava sendo seguida. Chegou em casa e trancou a porta e a janela. Morava num sobrado pequeno de dois cômodos, que foi o que conseguiu na época em que ainda tinha que pagar sua dívida. Mesmo depois que Karla havia se “retirado” dos negócios e a dívida havia sido perdoada, permanecia ali, pois ainda era um dos lugares mais baratos próximo ao seu trabalho no bar clandestino. Peter era seu cobrador e ela se apaixonou imediatamente quando o viu. Foram muitos casos resolvidos até o dia em que ele se recostou no balcão e a chamou de amor. Coincidentemente tinha sido no caso de Vincent, e após todo o desdobramento da história de Sandra, ela não conseguia decidir se ele realmente a amava ou se estava apenas tentando proteger uma amiga que fora uma paixonite de juventude. 

Naquela noite, ele não tinha aparecido no bar e ela se preocupava, dados os últimos eventos. Mal acendeu a luz do quarto quando viu um vulto do lado de fora da janela. O cabelo bagunçado, o sobretudo e a fumaça de cigarro subindo fizeram com que o reconhecesse imediatamente.

— Peter! O que está fazendo aqui?

Não teve coragem de fazer mais perguntas quando percebeu que ele tinha um ferimento no braço.

— Só vim ver como você estava, amor. Não consegui passar no bar e precisava me certificar que você estava bem.

— Mas você está ferido…

— Ah, isso? — ele escondeu o braço atrás do corpo — Não é nada com que você precise se preocupar.

— Quer entrar? Eu posso fazer um curativo.

— Só um curativo?

Ela sabia que ele estava provocando, mas sentiu as maçãs do rosto se aquecerem mesmo assim. Era de se esperar que um homem com uma cicatriz no rosto fosse causar certo medo, mas não era o caso com Peter. Se a bartender tinha algum arrependimento, era pelas escolhas de relacionamentos que tivera até ali. Caso tivesse feito escolhas mais saudáveis, talvez tivesse se apaixonado por Hugo. Mas não, anos escolhendo homens com um dedo podre fizeram com que toda sua paixão fosse destinada àquele homem ferido que estava entrando em seu quarto pela janela.

— Você sabe que eu podia abrir a porta, não é mesmo?

— Assim é mais rápido e chama menos a atenção.

— Tenho minhas dúvidas a esse respeito — ela disse, enquanto pegava uma garrafa na cabeceira da cama — Aqui, segure.

Era vodka. Ele olhou para ela, confuso, enquanto ela ajudava a tirar o sobretudo.

— Eu sou uma bartender, não uma enfermeira. Preciso de pelo menos um gole disso se quiser mesmo fazer um curativo decente. E vai arder, porque eu preciso limpar, então beba um gole também. E sente-se na cama.

Enquanto ela procurava o estojo de medicamentos ele a encarou, incrédulo. Olhou para a cama de solteiro feita de metal.

— Vai ranger um bocado…

— O que disse?

— Ah… Que isso não é nada, eu posso dar um jeito chegando em casa.

— Peter, você já entrou pela minha janela. — ela trouxe o estojo de medicamentos e colocou em cima da cama, enquanto começou a desabotoar o colete por cima da camisa — Nós dois sabemos que você não vai pra casa essa noite — ela disse, tirando o colete e começando a desabotoar os primeiros botões da camisa, olhando diretamente para o braço dele, tentando medir o tamanho do corte em meio ao sangue — Talvez eu tenha que dar alguns pontos… Pode se sentar, eu vou buscar alguns panos para limpar o sangue primeiro.

Quando voltou, seu foco não estava mais no braço ferido, então notou como Peter tinha um bom físico. Não era algo que se reparasse o tempo todo, já que ele andava com várias camadas de roupa. Ele estendeu a garrafa e ela bebeu, voltando a atenção ao que tinha que ser feito.

O corte não era muito profundo, então não precisaria de pontos, mas ela fez um curativo um pouco mais reforçado, por via das dúvidas. Respirava profundamente, tentando acalmar o próprio coração que palpitava no peito com tanta força que tinha a nítida impressão que, da distância que ele estava, Peter com certeza estava ouvindo. Começou a reparar nas cicatrizes que ele tinha naquele braço, no ombro, no peito... Foi instintivo que, ao terminar o curativo, seus dedos começaram a traçar as linhas de algumas dessas cicatrizes.

— Eu não vou te contar a história delas.

— Não precisa.

Sentiu a mão dele em seu rosto, levantando seu olhar até que seus olhos se encontrassem, seu polegar afagando de leve sua bochecha. Então se aproximou dele até que seus lábios se tocassem. Ela o empurrou mais para o meio da cama e se aninhou em seu peito, enquanto aprofundava o beijo. Ele tentou abraçá-la, mas grunhiu.

— Cuidado, seu braço…

— Talvez devêssemos esperar uma próxima vez — ele disse, segurando a camisa para se vestir.

— Não, por favor — ela o segurou pelos ombros — É só irmos mais devagar e com mais cuidado.

— Devagar assim?

Ele começou a beijar seu pescoço e despí-la de suas roupas. Seus dedos roçavam propositalmente em sua pele a cada movimento, deixando-a arrepiada. Lá estava ele, com aquele sorriso provocador que fazia com que cada noite servindo bebidas em plena proibição valesse a pena.


— Vem cá — ele disse após se deitar na cama, dando batidinhas no colchão — Se não nos mexermos muito, vamos ficar bem.

— Primeiro vou tomar um banho. Não tive a oportunidade de tomar um desde que cheguei do trabalho.

Em dias normais, ela tomava um banho rápido, vestia um pijama confortável e ficava longamente encarando seu quadro de pistas, tentando descobrir novos detalhes de algum caso que ela obviamente não deveria estar investigando, e se deitaria logo quando se desse por satisfeita com suas deduções. Mas naquele dia ela fez questão de desenterrar uma camisola que usava nos dias mais quentes da gaveta. Talvez não fosse a melhor das ideias, mas era melhor do que vestir o velho pijama cheio de remendos. Tomou seu banho e voltou para o quarto. A luz estava apagada, mas a lua iluminava o quarto. Ele a esperava, claramente desperto.

— A-acho que vou pegar mais um cobertor.

— Bobagem. Eu te esquento.

Derrotada, ela se deitou com cuidado, encostando as costas no peito dele.

— Boa noite, Peter.

— Boa noite, amor.


Quando Peter acordou o sol ainda nem tinha surgido no céu, e a bartender dormia como uma pedra sobre seu braço bom. Seus cabelos estavam soltos e tinham cheiro de jasmim. Esticou a mão para tocá-la, mas recuou por um segundo.

— Você destrói tudo que toca!

Ele fechou os olhos com força, tentando afastar aquela sensação ruim que tinha de tempos em tempos. Já havia pensado em desistir de se relacionar de forma romântica, mas sempre existia uma próxima mulher. E elas sempre acabavam sumindo. Dessa vez, ele estava decidido a não deixar que isso acontecesse. Então percebeu que ela começou a se mexer, se virando para encará-lo.

— Bom dia.


Ainda de camisola ela foi para a cozinha preparar algo. Pensou em pão com queijo e café. Estava organizando os ingredientes quando percebeu que Peter estava encostado na entrada, de braços cruzados, observando.

— Lembra quando você começou a me chamar de amor? — ela começou a falar enquanto passava um café — E nós fizemos planos de uma noite regada a gin e um café da manhã? Bem — ela fez uma pausa, cruzando os braços e olhando de volta para ele — Eu nunca imaginei que seria tão cedo, nem que seria como foi, então não tenho muito a oferecer, mas se quiser algo específico…

— Tem algo bem específico que eu quero, na verdade — ele a cortou, se aproximando.

— E o que seria?

Peter a pegou pelos braços e a rodou, prendendo-a na parede com os braços para o alto, uma perna entre as dela.

— Você.

A intenção era apenas fazer com que ela ficasse corada. Ele adorava ver aquela expressão em seu rosto. Mas foi surpreendido quando ela arqueou o corpo para beijá-lo. Ele soltou seus braços e a puxou pela cintura para mais perto, enquanto ela o beijou com uma necessidade que não existiu na noite anterior. Algo estava errado.

— Ei, devagar, amor — ele se forçou a afastar os lábios — Eu não vou a lugar algum.

Ele sentiu quando as pernas dela bambearam, mas não conseguiu evitar que ela deslizasse pela parede até sentar no chão com um suspiro longo.

— Você promete?

— E para onde mais eu iria?

Ela baixou os olhos para as próprias mãos, que estavam inquietas.

— Na verdade — ela começou, e sua voz era pouco mais que um sussurro — depois de tudo que você me contou sobre a Sandra, e como ela teve que ir embora, eu — ela levantou a cabeça e o encarou diretamente — achei que era apenas uma questão de tempo até você ir atrás dela.

— Amor, o que houve entre eu e a Sandra ficou no passado. Eu estou com você agora.

— Então, me chame pelo meu nome.

Quando ele disse seu nome, ela se sentiu feliz e acreditou. Ele ajudou a levantá-la e propôs que fizessem uma visita à casa dele um dia desses. Ela terminou de preparar o café da manhã e ele voltou para casa, prometendo visitar o Nightcap naquela noite. Tudo parecia bem, até a visita de Hugo alguns dias depois.

— Sei que te ofereci de continuarmos trabalhando juntos, mas as coisas estão ficando perigosas. Ouça meu conselho, saia da cidade, se for possível. Se não, se esconda. Sinto que as coisas vão ficar feias em breve e não posso garantir sua segurança.

Aquilo a assustou, mas ela não comentou nada a respeito com Peter. Tudo que fez foi recusar o convite dele para ir até a casa dele. Não podia correr o risco de colocar um alvo em suas costas, não depois de tudo que tinha passado para garantir sua inocência. Ela resolveria sozinha, era o que pensava.


O inverno já estava quase no fim, mas a neve ainda caía em Bukovie. Naquela tarde, enquanto a bartender preparava a guarnição, ouviu a porta do bar clandestino abrir. Seu sangue gelou, lembranças do caso da Sandra passando por sua mente no intervalo de um piscar de olhos.

— Estamos fechados.

Em qualquer outro dia, teria sido mais cortês. Mas a pessoa que entrou estava encapuzada e vinha com as mãos nos bolsos. Nada daquilo lhe passava uma boa impressão. Ela não tinha para onde correr, mas podia tentar chamar a atenção. Correu na direção da sineta de balcão e começou a pressioná-la rápida e incessantemente, na esperança de que Ilya a ouvisse. A pessoa encapuzada não recuou, pelo contrário, assim que percebeu sua movimentação, correu em sua direção, tirou uma faca de um dos bolsos do casaco e fincou em seu estômago. A bartender viu seus lábios se contorcer em um sorriso e ouviu uma voz masculina.

— Você já era.


Ilya conseguiu tirar a bartender do Nightcap antes de pedir ajuda. Seria pior se encontrassem o bar clandestino naquele momento, já que Vincent não estava plenamente recuperado de seu próprio ataque. Peter ficou sabendo o que houve ainda naquele dia, mas não pode ir até o hospital vê-la. Ela não teve a mesma sorte de Vincent, sua ferida foi profunda o suficiente para que os médicos não conseguissem salvá-la. Peter ficou devastado por um tempo, até que a guerra que todos temiam finalmente explodiu. Ele não tinha mais nada a perder, foi o que pensou quando se alistou. Não muito tempo depois, soube que o detetive Hugo Mertens  também havia sido assassinado. Não era difícil ligar os pontos e descobrir que tudo aquilo era uma manobra política para se livrar de possíveis pedras no caminho. Hugo sabia demais, e por causa dele, a bartender também sabia. Só que agora ele não tinha nem mais alguém para culpar pela morte dela, pois o detetive também estava morto. Quando voltou da guerra, acabou conseguindo um posto como detetive na polícia de Bukovie. Aquele era o primeiro passo, pensou. Sabia o que tinha que fazer, só precisava de tempo. E agora, tempo era o que mais tinha.




sexta-feira, 19 de junho de 2026

Fanfic - A Refeição Completa de Collette

Há alguns dias encontrei meus rascunhos de alguns crossovers que achei que seria legal escrever. Faz tempo que não posto nada aqui no Blog, mas talvez eu traga minhas outras histórias (e até escreva novas, como essa) para cá também. Espero que gostem!

Era um belo dia de outono quando Collette recebeu uma carta muito elegante. O remetente era, supostamente, alguém sobre quem ela só tinha lido em revistas, e ela tinha suas dúvidas sobre a veracidade do conteúdo. Mesmo assim, sua curiosidade falou mais alto. Estava escrito:

Senhorita Collette, espero que esta carta a encontre com boa saúde. Meu nome é Pierre e, além de ser um gourmet, presto serviços como juiz de um concurso de culinária entre dois vilarejos do interior. Chegou ao meu conhecimento que você é uma entusiasta da culinária e esse é o motivo de meu contato. Se não se importar, consideraria me ajudar? É uma vergonha admitir, mas fiquei muito doente e meu paladar foi afetado, impossibilitando-me de cumprir meus deveres no concurso de culinária. Os prefeitos Rutger e Ina foram informados e me perdiram desesperadamente para indicar um substituto. Graças ao meu trabalho, conheço um bom número de outros gourmets, mas nenhum me pareceu entusiasmado com a ideia de ir até alguns vilarejos no interior apenas para julgar o concurso deles, ainda mais em pleno final de semana. Sei que o tempo é curto e que é um favor audacioso a se pedir, já que não nos conhecemos pessoalmente, mas gostaria de pedir que você trabalhe como minha substituta para eles. Estou enviando meu cartão com minhas informações de contato dentro do envelope, bem como uma passagem e o endereço para onde você deve comparecer, caso concorde com meu pedido egoísta. Você será paga pelos prefeitos ao final do concurso e pode ser uma experiência interessante para uma jovem promissora como você. Ficarei aguardando seu contato para saber se poderá me ajudar. Com os melhores cumprimentos, Pierre.

Agora, Collette não era tão ingênua a ponto de acreditar tão facilmente naquela carta. E se aquilo fosse uma armadilha? Então, ela decidiu investigar mais sobre as informações que tinha recebido. Primeiro, olhou as informações do cartão de Pierre. Não tinha como confirmar se elas eram verdadeiras só de olhar, então ela verificou a passagem. Ela pediu ajuda para chegar até a estação de trem e perguntar sobre o tempo de viagem e se a passagem era válida.

— É uma viagem um pouco longa. Se pretende mesmo chegar lá pela manhã, te recomendo pegar o trem na sexta-feira, na hora do almoço. Assim, pode chegar antes do anoitecer e descansar. Você está indo visitar parentes? Seria bom avisá-los para te buscarem na estação.

Quando retornou, passou o resto da tarde na casa de banho, fazendo perguntas aos visitantes. Ela conseguiu reunir um pouco de informação não apenas sobre Pierre, mas sobre os dois vilarejos também. Alguém até lhe deu um mapa para que ela pudesse traçar seu caminho até o lugar certo. Ela não pôde evitar o nervosismo, mas decidiu aceitar a oferta, entrando em contato com o gourmet para informá-lo de sua decisão.

— Muitíssimo obrigado, senhorita Collette! Quando voltar, fale comigo. Caso tenha interesse, podemos montar uma parceria.

A garota não conseguia imaginar no que uma parceria com o famoso gourmet poderia ajudá-la, mas ainda assim achou uma oferta interessante demais para apenas deixar passar. No dia seguinte, depois de tomar um café da manhã reforçado, ela preparou uma bagagem leve e foi para a estação de trem, onde pôde usar a passagem para chegar ao seu destino. A mudança de cenário foi sutil, de forma que ela quase podia jurar que ainda estava em Sharance. Ao sair do trem, ela se surpreendeu ao ver alguém esperando perto de uma carroça com um papel com seu nome escrito.

— Olá — ela cumprimentou. — Eu sou Collette.

— Graças à Deusa! — o rapaz disse, estendendo a mão. — Olá, sou o Philip. O senhor Pierre avisou a prefeita Ina que você estava vindo, então ela me pediu para te esperar na estação. Tem algo que você queira fazer antes de irmos para o vilarejo?

— Não, na verdade não. Vamos lá.

Pegar o trem tinha sido uma experiência, mas andar de carroça era outro nível. Enquanto o trem tinha aquele ritmo rápido e um barulho estrondoso o tempo todo, a carruagem era bem menos barulhenta, mas também muito menos confortável. Philip tentou puxar conversa, mas Collette ficou com medo de que ele fosse um dos competidores e estivesse tentando ganhar o favor dela.

"Não posso me deixar enganar," ela pensou enquanto segurava com um pouco mais de força a alça da própria mala. Ele deve ter percebido, pois o resto da viagem foi em silêncio, o que não a incomodou,  já que pode observar o cenário.

— Tem algum lugar onde eu posso descansar antes do concurso?

— Conhecendo aqueles dois cabeças duras que são os prefeitos, tenho certeza de que eles preferem que você aguarde no topo da montanha. Mas não se preocupe, eu conheço uma pessoa por lá que talvez possa te emprestar uma cama. — Ele mal terminou a frase quando o estômago de Collette roncou alto o suficiente para ele ouvir — E talvez ela possa te oferecer algum aperitivo antes do concurso. Eu mesmo me ofereceria para te preparar algo, odeio quando alguém passa fome, mas — ele respirou fundo e sua expressão ficou bem solene — no fim das contas, eu também vou participar do concurso.

— E vir me buscar não te atrapalhou?

— De forma alguma! O bom de se conhecer muitas pessoas é que, com o tempo, elas começam a te dever favores. Acho que está na hora de eu cobrar alguns desses favores.

Mesmo não querendo, Collette não pode evitar de imaginar Philip coagindo alguma pobre pessoa inocente a passar sua própria entrada no concurso como uma troca de favores. Quando chegaram em determinado ponto da montanha, Philip a deixou com uma garota de cabelos rosa antes de retornar montanha abaixo. Ela se apresentou como a Oráculo. Sem nomes, apenas o honorífico. Ofereceu-lhe chá com biscoitos e, apesar daquilo estar longe de ser o suficiente para saciar sua fome, a garota lhe assegurou que, dentro em breve, a situação se resolveria. Collette teve sonhos com trens, carroças e cavalos antes de tudo tremer.

— Ei, acorde, está na hora.

Era Philip novamente, e dessa, pronto para levá-la para o topo da montanha. Quando chegaram onde todos os concorrentes já estavam reunidos, ela sentiu um nervosismo repentino do nada. Afinal, ela não era uma gourmet. Por que ela aceitou um pedido desses? E se ela falhasse? E se todos ficassem desapontados com o trabalho dela?

— Olá, querida! Pierre nos falou sobre você — uma mulher de aparência elegante e roupas vermelhas veio em sua direção e a cumprimentou.

— Estamos muito gratos por você ter vindo. Pierre não é de ficar doente, então ficamos realmente preocupados quando ele nos contou sobre sua condição e sobre nos enviar um substituto — disse um cavalheiro loiro que, obviamente, estava preocupado com a troca de juízes.

— Espero não decepcionar — disse Collette, finalmente sentindo o peso de sua responsabilidade.

Mas a sensação durou pouco. Quando ela conheceu os concorrentes e viu seus pratos, pôde entender por que Pierre faria questão de sair de seu caminho para julgar aquele concurso de culinária. Ambos os vilarejos tinham ingredientes e métodos culinários muito únicos e isso se refletia nos detalhes. Ela também não pôde deixar de notar que uma garotinha havia entrado no concurso por uma das cidades, com um prato que obviamente tinha ficado tempo demais no fogo.

"Isso significa que este concurso é acolhedor para qualquer um que queira participar", ela pensou.

— Bem, se todos estiverem de acordo, vou começar.

Ninguém pareceu se opor, então ela começou pela refeição que imaginou que seria a mais difícil de engolir.

— E-eu serei a primeira?

Collette assentiu enquanto provava. De fato, era tão ruim que mesmo ela, que tinha facilidade de comer qualquer coisa, quase chorou. A prefeita trouxe um copo de água e murmurou um "sinto muito". Collette olhou para a garotinha, que a encarava com os olhos marejados.

— Ei, não desista. Dessa vez, você não conseguiu, mas tenho certeza que se você continuar tentando, vai conseguir cozinhar um prato tão bom quanto qualquer outro.

Ela nem tinha terminado de provar todos os pratos e já estava fraquejando. No entanto, depois do prato falho, ela se surpreendeu com o cuidado, o carinho e o sabor dos pratos de todos os outros competidores. Ao ponto que seu apetite se viu revigorado, e ela quase acabou com um ou outro prato que lhe foi oferecido durante o concurso.

— Ahem... Acho que chegou a hora de eu dar meu veredito. Eu consegui sentir a paixão que cada um de vocês colocou em cada prato, em suas sutilezas e suas explosões de sabores. Os vencedores são os competidores daquela mesa.

Houve uma explosão de risos e lágrimas. Um pedido de desculpa e abraços. Collette percebeu que aquilo era mais que apenas um concurso para aquelas pessoas. Tanto a vitória quanto a derrota, para aquelas pessoas, era o combustível e a determinação para fazer melhor na próxima vez.

— Muito obrigado por vir, querida Collette. Fico honrado que tenha nos escolhido como vencedores. Aqui, esse é o pagamento combinado.

— Imagino que você vai querer descansar antes de retornar? Você deve estar exausta, e não faz bem viajar logo após comer. Venha, vou te mostrar Konohana. Ela é linda na primavera, mas mesmo nessa época do ano, a paisagem é mais agradável. Afinal, você não vai querer ficar em um lugar que fede a bosta de vaca.

Rutger estava tão feliz com a vitória que ou não ouviu ou ignorou o que Ina disse. Ela mesma não se importou e começou a descer a montanha a pé com Collette logo atrás. Parecia injusto ter que andar depois de uma refeição tão abundante, ela sentia que podia descer rolando a montanha se alguém a ajudasse, mas se deu por feliz que ao menos era uma descida. Ina lhe entregou uma passagem de trem sem data. Explicou que, se ela quisesse ficar um pouco antes de ir, que era bem-vinda e que, desde que Lilian e Philip chegaram, a vida nos vilarejos tinha mudado. Collette obviamente não tinha interesse algum naquilo, mas continuou ouvindo, seus pensamentos voando para longe, a voz de Ina embalando seu sono.

Quando acordou, percebeu que Philip estava sentado numa poltrona ao lado, lendo uma revista.

— Eca, você estava me espiando?

— Não, só achei que seria rude te acordar, então estava esperando que você acordasse sozinha — Ele disse enquanto colocava a revista de lado — Então, já decidiu o que quer fazer? Ainda dá tempo de pegar o último trem de volta para Sharance.

— Acho que quero ir, mas — Ela se espreguiçou e olhou para ele, com olhos famintos — Será que eu posso fazer um lanchinho antes?

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Review - Amor e Monstros

Hoje bora de filme blockbuster?

Resumão sem Spoilers
Vamos falar de Joel (não o do The Last of Us). Joel é um cara bacana. Ele ama a Aimee. Mas fazem sete anos que a terra está em um estado pós apocalíptico (será que posso chamar assim?) onde a humanidade foi bastante devastada (isso sempre acontece, não é mesmo?). E o Joel não sabe onde está a Aimee. Mas ele descobre e resolve ir atrás dela! Esse é um filme sobre uma jornada de sobrevivência. E pela busca de si mesmo.

Spoiler-mas-não-tanto
A humanidade se escondeu em bunkers (porque eles são muito bons pra lutar e explodir coisas, mas na hora que precisa, eles morrem feito moscas). E o Joel tem uma comunidade fofa onde todo mundo gosta dele. Mas ele ama a Aimee e quer ir atrás dela quando descobre onde ela está. O problema é que o Joel é literalmente um covarde. Só que ele é u m covarde de sorte. Ele não só consegue um cachorro, o Boy, como conhece o Clyde e a Minnow. Eles meio que treinam ele. Pra sobreviver, sabe? E funciona. E ele chega na comunidade da Aimee.

Spoilers - não diga que eu não avisei
O problema é que somos humanos lidando com humanos. Toda vez que ele encontra alguém no meio do mundo perguntam se ele foi expulso por roubar comida. Isso te faz entender como comida é um negócio difícil nessa realidade. Você quase torce pra ele desistir de ir atrás da Aimee pra ficar com a Minnow e o Clyde, mas ele realmente ama a Aimee. Palmas pra ele, sério. E quando ele encontra a Aimee você sabe lá no fundo que ela já tem outro. Mas calma, o filme dá um jeitinho nisso pra você. E realmente existem ladrões de comida. E piratas. E você fica felizão com o final, quando o Joel (sim, aquele mesmo Joel covarde do início do filme) inspira pessoas a saírem de suas tocas e lutarem. Pq existe um mundo maravilhoso lá fora, digno de ser vivido. E a moral da história é que o mundo seria um lugar lindo se não houvessem humanos nele. Mesmo com insetos mutantes gigantes, o mundo é um lugar lindo de se viver. Mas não entendam errado, o filme é bom. Só não se apeguem demais a detalhes. O filme é cheio de falhas de continuidade. E você vai perceber quando a vaca não aparecer no final.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Review - Fuja

Eu gosto de ver as notícias recomendadas pelo google. Nem que seja pra saber de forma superficial como anda o mundo. Então hoje me chamou a atenção uma notícia específica: 3 filmes que você precisa assistir nessa semana na NETFLIX. E dos três resolvi assistir Fuja. Querem ver a avaliação do filme na reportagem, fiquem à vontade, que aqui vamos pro review.

Resumão sem Spoilers
O filme segue a vida de uma menina que nasceu com muitos problemas de saúde e que agora está na flor da idade com seus 17 anos, esperando por uma carta de aceitação na faculdade enquanto sua mãe se esforça pra cuidar dela.

Spoiler-mas-não-tanto
A menina é muito inteligente então quando você nota que as cartas das universidades não estão chegando você começa a se questionar. A própria menina começa a se questionar sobre as atitudes da mãe quando um dos remédios que ela costuma tomar é trocado, supostamente pela "fábrica da Sinvastatina ter falido". Fala sério mulher, não tinha desculpa melhor não?

Spoilers - não diga que eu não avisei
Em vários momentos do filme a Chloe te prova que ela é inteligente. Muito inteligente. No entanto é exatamente pelo filme demonstrar essa inteligência da personagem que você imagina que ela seria mais articulada. O que ela não é em momentos decisivos do filme, que podem acabar por te frustrar um pouco. Não chega a estragar o filme, mas você espera que se ela está fugindo de casa ela não vai andar com a cadeira de rodas no meio da estrada, sabendo que a mãe dela pode voltar por essa mesma estrada pra casa que ela acabou de fugir e dar de cara com ela. Da mesma forma que você não espera que a mãe tenha uma arma mas naquelas... por que não, não é mesmo? E você definitivamente não espera que a mãe tenha roubado a menina ainda bebe e envenenado ela durante toda a vida pra que ela não conseguisse andar e ter uma vida normal... E então você acha que a mãe morreu mas o filme te manda num time skip de 7 anos para te mostrar uma visita da Chloe à sua "mãe". E ela fala alegremente sobre sua nova vida. Você entende que ela conseguiu voltar pra família a qual ela de fato pertencia, que se casou e que até tem um filho. E pílulas que são extremamente familiares entram em cena novamente para um desfecho que pode parecer cruel e vingativo. E que é nada mais que isso mesmo. Mas o filme é bom. Assistam.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Review - Trilogia Fate: Heaven's Feel

 Esses dias meu namorado me chamou pra assistirmos esses filmes pois ele estava empolgado pra assistir o terceiro. Terminamos de ver dois deles e no dia seguinte já tinham tirado do ar o terceiro. Mas graças ao meu amigo mais que otaku, Shiaku, conseguimos assistir o terceiro filme hoje ainda e como eu ando sem muito ânimo de assistir filmes na Netflix, o review hoje será sobre eles.

Resumão sem Spoilers
Se você já assistiu qualquer saga Fate sabe do que se trata. Se não, o resumão sem spoilers é pra você! Magos invocam heróis para lutarem por eles e conquistarem o Santo Graal. Sim, Fate é só isso. Mas aprofundando no Heaven's Feel, é a linha que acompanha a saga de Shirou com a Sakura como interesse romântico. Lembrando que Fate vem de jogos em que o rapaz tem várias pretendentes e as escolhas que você faz no jogo afetam com quem você vai ficar no final. Não, eu não joguei os jogos, mas conheço a existência.

Spoilers - Não diga que eu não avisei
O primeiro filme não foge muito do inicio de qualquer boa saga que acompanhe o pobre Shirou, mas aqui ele se aprofunda nas memórias da Sakura e na ligação forte que ela tem com seu "senpai". Ela praticamente vive mais na casa dele do que na própria, o que é totalmente compreensível dado o passado dela. Eu ia falar mais desse passado mas vou fazer diferente e recomendar que quem estiver de fato curioso a respeito assista Fate: Zero. No desenrolar dos três filmes vemos como a Sakura vai se perdendo em um caminho de desespero enquanto vê a casa que divide com o senpai ser "invadida" por outras garotas além dela. Seu senpai sempre volta machucado e isso a deixa aflita. Em determinado ponto vemos ela sendo abordada por ninguém mais, ninguém menos que Gilgamesh. E ela o devora. Nesse momento você já percebeu que tem uma sombra estranha atacando pessoas e o clique acontece: Sakura é a sombra. Shirou percebe isso no final do segundo filme e até tenta matar a Sakura, mas percebe que não consegue fazer isso e resolve protegê-la até o final. O terceiro filme faz um fechamento muito bom para a guerra do Graal, com direito a espadas brotando do corpo do Shirou, o que me fez lembrar do mantra do Archer: I am the bone of my sword. Traduzindo, "eu sou o osso da minha espada". Mais literal que isso, impossível! Mas para por aí. I resto do filme mostra uma Rin tendo que levar sua irmã pela mão, pois o corpo do Shirou desapareceu. Aqui vale a pena mencionar a loja de bonecas da Touko (personagem de Kara no Kyoukai) que aparece brevemente de costas (dá pra reconhecer pelo cabelo vermelho sangue), onde dá pra perceber que elas compraram uma boneca e colocaram "algo" nela. O fim mostra a própria Sakura na casa do Shirou, preparando comida até q surge o próprio Shirou. Quando ambos estão saindo a Rin lhe pergunta se ela está feliz. Ela responde que sim e fica nítido que a irmã não vai interferir, mesmo sendo nítido que ela não concorda.

Considerações Finais
A trilogia foi boa, mesmo pra alguém como eu que não vai muito com a cara da Sakura. Ela finalmente mostra alguma personalidade, mesmo que seja torta, e todos os personagens tiveram que se mexer de alguma forma, mesmo aqueles que não apareciam diretamente nas outras sagas que envolviam o Shirou (tipo o avô Matou). É sempre lindo ver as cenas de luta e principalmente rever meus personagens favoritos no filme, mesmo que em segundo plano. A Rin continua sendo, pra mim, a salvadora da série. E é isso.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Review - As Memórias de Marnie

Review de hoje vai ser sobre um filme dos estúdios Ghibli. Estamos numa streak de filmes de língua não inglesa! Não sei se fico orgulhosa ou se me preocupo. Vamos ao que interessa!

Resumão sem Spoilers
O filme gira em torno de Anna, uma típica adolescente com problemas. Ela tem uma crise de asma e sua mãe, preocupada, a envia para a casa de parentes para que se recupere. Lá ela descobre um casarão que chama sua atenção, onde conhece Marnie. As duas vivem algumas aventuras juntas até que uma nova família se muda para o casarão. Sua estadia ali está chegando ao fim.

Spoiler-mas-não-tanto
Anna, em vários momentos, parece ter uma conexão profunda com Marnie. As duas se amam e isso é bem claro durante o andamento do filme. Mas Marnie tem uma personalidade muito mais amável que Anna. Durante a maior parte do filme você pode acabar como eu, sentindo um desconforto extremo com algumas atitudes da Anna, como insultar uma garota gorda que estava apenas tentando ser legal com ela. Anna é cabeça dura e age como uma típica adolescente. Ver o filme me fez lembrar de como eu mesma era naquela época e me fez sentir aquela conhecida vergonha alheia.

Spoiler - Não diga que eu não avisei
A família que se mudou para a casa de Marnie tem uma menininha que acredita que a Anna é a Marnie. Ela não estava lá muito errada em sua suposição. Conforme as duas vão avançando em suas pesquisas para descobrir quem era Marnie elas encontram um quadro que foi dado para Marnie por uma amiga que Anna conhece, por ser também uma desenhista como ela. Quando confrontam a senhora, ela explica a história de Marnie, explicando como ela era uma garota maltratada e sozinha, como tinha casado, criado uma família e como tudo tinha dado errado depois que seu marido tinha morrido. De como sua filha lhe rejeitou pra, um tempo depois, morrer e deixar a filha pra trás, que Marnie cuidou até não aguentar mais de tristeza pela morte da filha e morrer também. A surpresa é quando Anna descobre ser a neta de Marnie. E sua mãe adotiva vem lhe buscar e confessa que recebem auxílio para cuidar dela, o que ela já sabia e guardava com rancor, por achar que a família não a amava e sim que estava com ela pelo dinheiro. Antes de ir embora Anna se redime da maioria dos erros que cometeu, a redenção que você esperaria de uma animação. Te dá uma sensação de alívio, mas não tira o amargo do caminho que foi trilhado até ali.

Considerações Finais
Por ser uma animação da Ghibli eu peguei pra assistir já sabendo que não devia ter altas expectativas sobre ele. Não me levem a mal, mas com Ghibli, no meu caso, é assim: alguns filmes eu vou amar, outros eu vou achar meh. As Memórias de Marnie é um desses filmes meh que, apesar de ter "arrumado" no final, não tirou a decepção do desenvolvimento. Anna é uma adolescente e você sabe que não pode esperar muito das pessoas nessa faixa etária, mas tem momentos que a aflição dela parece exagerada, como se ela simplesmente quisesse ser revoltada com a vida e buscasse qualquer motivo que se apresentasse em sua frente para justificar essa revolta. Não que ela não tenha motivos, ela tem aos montes. Mas quando se vive num país como o Brasil você olha para o drama dela e o acha pequeno.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Review - Amor²

Essa semana eu vou falar de outro filme de língua não inglesa. Romance. Para aqueles que não gostam já podem esperar a semana que vem.


Resumão sem Spoilers
Uma professora simples com um pai endividado começa a trabalhar secretamente como modelo para ajudar a pagar as dívidas do pai. Como modelo ela conhece um playboy viciado em carros que acabou de levar um pé da namorada/colega de trabalho e passou a morar com o irmão, que tem uma filha que é a melhor aluna da professorinha. O filme se desenrola basicamente entre esses personagens. 

Spoiler - Não diga que eu não avisei
A namorada abandonada chega a inventar uma gravidez falsa para separar os dois. Não funciona. A menina tem alergia a peixe e sofre com essa alergia por duas vezes no filme, ambas sendo salva pela professora. Na primeira vez, na excursão da escola, quando o playboy começa a tratar a professora como gente. Na segunda, no lançamento do comercial que eles estavam trabalhando juntos, como modelo e onde de fato descobrem que ela é... ela. Até o pai dela estava lá, levado pelo funcionário mal caráter que ele tinha. Minha felicidade foi ver que o pai não era tão mal assim e entendeu que a filha estava fazendo aquilo pra ajudar ele e dá um soco bem dado (e merecido) no funcionário. E todos acabam felizes.

Considerações Finais
O filme não é o melhor romance que eu já vi. Inclusive achei que o relacionamento deles pareceu um tanto rushado. No entanto, a menina e sua situação da mãe ter ido embora e ela estar sob os cuidados do tio playboy rouba as cenas em que ela aparece. E enquanto no papel de professora a atriz tem um carisma fofo. Te faz querer torcer por ela mais do que pela modelo. Mesmo o playboy acaba crescendo durante o filme, mostrando que até ele pode se tornar não só uma pessoa mais responsável mas também um homem que consegue se dedicar a uma única mulher. É a impressão que passa no final do filme pelo menos. Mas ainda parece que a paixão principal dele são carros.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Review - A Nova Ordem Espacial

 Desde que o Covid se tornou um problema as pessoas pararam de fazer muitas coisas. E passaram a fazer outras. As rotinas mudaram. Uma das mudanças mais tristes que aconteceu pra minha rotina foi o fechamento dos shoppings. Mais especificamente dos cinemas. Mas nada que a Netflix ou a Amazon Prime não resolvam, não é mesmo? Então resolvi fazer uma sessão nova no blog. Esses reviews de filmes que eu estou assistindo nas duas plataformas. Talvez eu fale de séries também, mas acho que isso envolveria muitos spoilers e não daria certo. Filmes são mais fáceis. Então, vamos começar?

Resumão sem Spoilers
Esse filme é aquilo que todo mundo esperava ver nos últimos filmes de Star Wars que eles falharam miseravelmente em entregar. Foi criado o paraíso no céu. Literalmente. E a Terra se tornou um lugar tóxico onde apenas os pobres permanecem. Um esquadrão de limpeza das galáxias - correção, dos arredores da terra -  que precisa de dinheiro acaba trombando numa garotinha procurada por ser uma suposta arma de destruição em massa. Quem assistiu o seriado Better than Us talvez veja alguma semelhança nessa sinopse, mas é uma semelhança mínima e logo a verdade faz máscaras caírem por terra. No final o bando se vê em mil e umas encrencas para devolver a garotinha. Para quem? Aí já teríamos que ir para a próxima parte.

Spoiler-mas-não-tanto
A garotinha na verdade não é uma arma de destruição em massa mas sim uma mera criança em quem foi injetado um composto para salvar sua vida. Às custas dela se tornar uma forma de cura. E é aí que duas facções entram em jogo: aqueles que querem resgatá-la pra devolvê-la a quem de direito e aqueles que a querem pra poder usar seus poderes. 

Spoiler - Não diga que eu não avisei
O melhor de tudo é você estar no meio do filme e perceber que reconhece a voz do vilão, começar a prestar mais atenção e descobrir que é o ator que interpretou o Thorin do Hobbit no papel. Ver o esquadrão se apegando a menina é uma das coisas totalmente esperadas mas que ainda te faz sorrir ao ver que apesar de durões eles são gente boa. Menos o personagem principal. Ele é um babaca o tempo todo e chega a ser tão irritante que talvez você pense em parar de ver o filme por causa dele. Mais de uma vez. Mas acredite em mim, veja até o fim, é recompensador. Não, eu não vou dar o spoiler do final. Vai ver o filme!

Considerações Finais
Uma das coisas que mais me surpreendeu enquanto assisti o filme (no idioma nativo) foi perceber que cada ator estava falando sua própria língua. E não tinham apenas coreanos no filme, não. Inglês e francês foram duas outras línguas que se ouvia comumente no filme. Supostamente existe um tradutor que você coloca na orelha e ele traduz tudo pra vc. Legal, né? Além disso, como mencionei no início do post, as cenas de batalha não são tantas mas eles entregam algo de qualidade. A única coisa que eu senti falta de fato foi uma explicação melhor para certa característica do vilão, mas... não influenciou o filme de forma negativa, então eu recomendo pra quem gosta de filmes de espaço com um grupo unido que luta por ideais nem sempre iguais, esse filme vale seu tempo.

domingo, 13 de setembro de 2020

Na sessão de RPG de hoje!

 Encontraram o último dispositivo! Estamos em uma caverna com trilhos. Ela é bem funda!

Oh não! Fomos agarrados por Estranguladores sobrecarregados. A mordida desse bicho dói e ele ainda fica nos dando choquinhos. Mas eu sei exatamente o que usar contra eles... Despedaçar! No teto! Já que vamos ter que cair de qualquer forma, vou dar meu "salto de fé"!

Estou caindo! Só que não! A gelinho tem um truque maneiro de fazer a gente cair mais devagar. Cada um tá se virando como pode. Eu por exemplo usei meu kit de escalada. A monge só se agarrou nas paredes. Minha amiga fez algum truque maneiro com a corda dela e disse q tem um baú em algum lugar. A gelinho nem parece ser afetada por essas coisas. Joguei uma corda pro Ronan, mas ele preferiu bater em si mesmo com o escudo pra se impulsionar pra parte  segura. O estrangulador que caiu está sendo devorado por alguma coisa. Não sei se sinto medo ou curiosidade. Ele começa a subir. Parece uma mistura de lagarto com crocodilo e saem raios da boca dele... Mas tudo bem! Eu ainda quero ver o baú!

Não consigo identificar nenhum perigo nela, mas ainda estou desconfiada. Pedi ajuda pra Brinth. Ela não viu nenhuma armadilha e abriu o baú. Tinha um robo-bomba. Eu até falei pra ele jogar no monstro do outro lado... mas esqueci de avisar q não era pra pegar nela! Não nos machucamos, mas a ponte embaixo da Brinth quebrou... O-ou...

A Solivagant levou a Elini pra junto do Ronan. Grupo unido jamais será vencido! Se isso for verdade, estamos com problemas... O monstro na parede está se movendo na direção dos três na ponte... A Elini acendeu uma tocha. E viu o Behir. Descobri o nome porque o Ronan decidiu defender os outros e chamou ele assim. Resolvi dar uma mãozinha e transformar ele em gorila. E ele se transformou em um gorila escamoso. Surpresa e nem um pouco desapontada! Olho pra baixo, me perguntando se a Brinth está bem. Tiros são feitos contra o Behir e o covarde resolve andar por debaixo da ponte. O gorila vai bem em cima de onde o Behir estava. Ergue as mãos e o golpeia. E a ponte no meio do processo. Parece q a ponte ficou mais danificada q o monstro, mas tudo bem. Amarrando bem a corda nan cintura, pra poder ficar livre pra atacar. O Behir parece bem inteligente, porque resolveu ignonrar o gorila e ir em direção às duas que estavam fugindo... e deu uma baforada de eletricidade que meu amigo... eu juro que até vi o esqueleto da gelinho! E a Elini usou banimento e correu de volta pra junto do gorila. Mas o gorila foi pro outro lado. Pensei em dar a volta e ver se via a Brinth voltando mas o q eu vi... foi uma coisinha asquerosa, cheia de tentáculos e olhos. Não gosto muito disso, mas vou ter que bater e me esconder. A gente tem que resolver isso antes do banimento do Behir acabar! A Brinth realmente voltou, mas... sério que você tá se escondendo aí? É, eu sabia q ia dar merda. Um mantor se prendeu na cabeça dela. Duas flechadas certeiras. Mas ela também é forte, então conseguiu se soltar dele. Que ainda levou uma porradona do gorila. Esse cara é meu orgulho! O problema é q o covarde resolveu fugir... vindo pra cima de mim! A Elini matou ele, mas... Apareceu outro. Nas sombras... ou foram dois? Ou... três? Ah, eu sei o q ele está fazendo! Só preciso ir pra luz. Obviamente, ele veio atrás. Tentei atacar com a Lilarcor mas acho q subestimei a distância entre nós, e distendi o braço. Mas ainda consegui desferir uns golpes nele. O resto do grupo parece estar se dando muito bem contra os monstros feios. O mantor parece que realmente quer me comer... e do nada tudo ficou escuro. É, eu sei o q está acontecendo; eu vivia nas cavernas afinal. É... só... bater nele... antes de perder a consciência... Sinto algo me segurando pela cintura, deve ser a corda. Sinto dor de cabeça. Alguém deve estar tentando me ajudar. Agora tá quente. Deve ter sido a gelinho. Do nada, luz! Balança, balança... quase deu vontade de dar impulso, mas senti o tranco no píton. Tenho que resolver esse problema, e logo. A Brinth matou o mantor. Vou arrumar o píton. O Behir voltou do além. E tá putasso. Lá embaixo, o bicho feio tá comendo todos os corpos caindo. Podia ser eu. Porradaria. Ele tava se preparando pra algo, mas o Ronan deu o golpe de misericórdia.

...continua.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

10000 Promessas

Pois é, eu também achei que não ia mais voltar pra cá. No entanto, olha eu aqui. Aconteceram muitas coisas, né? Mas vamos começar pelo começo.
Desde que sumi, algumas coisas grandes mudaram. Não estou mais namorando é a principal delas. E ele já está namorando outra garota. Uma garota que ele até troca a foto do Whatsapp pra uma deles juntos. Uma menina que ele até troca a foto do Discord pra mostrar eles juntos. Até pouco tempo atrás, acreditava até que ele tinha apresentado ela pros amigos. Coisas que ele nunca tinha feito comigo ou por mim. Houve um rompimento total por parte dele. "Você tira minha paz" foram as palavras que ele usou. E eu fiquei me perguntando que pessoa eu sou para tirar a paz de alguém. Que pessoa horrível eu devo ser.
No entanto ele, como várias pessoas antes dele, voltou a falar comigo um dia desses. Foi um início de papo meio caótico, comigo dizendo várias coisas que estavam entaladas na minha garganta. Ele lia e respondia. Inclusive quando mencionei o fato dele ter apresentado ela para os amigos dele, ele me corrigiu dizendo que não. Era outra pessoa. Ele inclusive me mandou uma foto do casal que estava na foto. E eu acreditei nele, como costumo fazer com as pessoas em geral.
Então ele me contou dois fatos sobre a atual namorada dele que me fizeram ter, para dizer o mínimo, medo dela. Supostamente falei mal dela. Pedi que ele me dissesse de onde ela tirou a ideia e q me mostrasse provas. Depois fiquei sabendo que ela leu todo meu blog e me caiu uma ficha do tamanho de um bonde: provavelmente ela leu o post "quem com ferro fere" e achou que o que eu estava dizendo lá era para ela. Que o que estava escrito lá era para ele. Podia ser! Mas não era.
Me surpreendeu, no entanto, o fato de que todas as mulheres que resolvem ter algo com algum homem que já passou pela minha vida tenham esse sentimento com relação a mim. Não vou nomear o sentimento pois acho que não preciso. Eu sei. Elas sabem. Mas eu não ligo. Elas no entanto parecem se incomodar profundamente. Da mesma forma que todos esses homens são, hoje, os fantasmas do meu passado, eu também sou. Sou como uma sombra na vida deles. Talvez até tenha sido responsável por muitos traumas para alguns deles. Mas eu mudei. Acho que amadurecer faz isso com as pessoas. E eu acredito que amadureci bem.
Uma das coisas tristes dele ter voltado a falar comigo é que, por alguns dias, tive a impressão que poderia cobrar dele algumas promessas que ele me fez enquanto estávamos juntos, mas como amigos. Como, por exemplo, ver as flores de cerejeira no Parque do Carmo. No entanto, ele traiu a confiança dela de alguma forma. E ela não gostou. A culpa é dele, ele me disse. Não soube os motivos então prefiro não opinar. Me deixou um pouco triste ter que voltar ao silêncio, mas eu definitivamente não quero ser o motivo da nova namorada dele ter dúvidas ou, pior, dela fazer da vida dele um inferno. Gosto demais dele para aceitar estragar o futuro dele. Mesmo que esse futuro não me inclua, vou seguir em frente. Seguir a minha vida, como ele mesmo me disse pra fazer. Mas vou me aproveitar da minha gaveta para guardar à 7 chaves as promessas que me foram feitas. Tanto por ele quanto por outras pessoas. Não para que eu possa cobrar, longe de mim. Mas para lembrar que outras pessoas também fazem promessas e esquecem que o tempo passa derrubando tudo que tem pelo caminho. Promessas inclusas.

domingo, 13 de outubro de 2019

Desafio dos 30 Dias - Eu Amo Estação de Agasalho

Hoje o dia foi quente do início ao fim, então fica até difícil escrever sobre frio. Mas vamos tentar!

Todo dia, no caminho da faculdade, eu via aquela senhorinha sentada em uma cadeira de balança do lado de fora de sua casa, com um cesto do lado e duas agulhas na mão. Passava todo o dia lá e, de tardinha, uma ou duas horas antes de escurecer, ela recolhia o cesto e voltava para dentro. Uma moça jovem vinha não muito depois e recolhia a cadeira. Achava a garota linda e queria conversar com ela, mas nunca tinha a oportunidade.
Certo dia, sem perceber, fiquei parado olhando por tempo demais e a senhorinha percebeu. Deu um sorriso e acenou com a mão para que eu me aproximasse. Hesitei, mas fui.
-Qual é seu nome, meu jovem.
-Roberto.
-Roberto! Que nome adorável. Está indo para a escola?
Acenei com a cabeça que sim e ela balançou a cabeça, em sinal de aprovação.
-Então vá e estude bem, meu filho.
Pasava o tempo e tinha a impressão que a senhorinha estava ficando mais frágil, mais fraca, quase como se estivesse minguando. Sabia que não era mal cuidada, mas não consegui evitar de me preocupar. Passei a conversar com ela todos os dias na volta da escola e acabei descobrindo que seu nome era Ana e que a jovem que vinha buscar sua cadeira todos os dias era sua neta, que tinha decidido morar com ela para tomar conta dela. Não tive coragem de perguntar o nome, mas ela chegou a inclusive me mostrar um álbum de fotos. Comecei a lhe trazer frutas que dividia com ela. Percebi que não conseguia comer uma maçã inteira então passei a dividir uma maçã ao meio. Já dizia o ditado, "uma maçã ao dia mantém o doutor longe". Mas não foi seu caso. Na troca de estação, soube que foi internada. Era triste passar na frente de sua casa e não ver nem a cadeira, nem o cesto, nem o movimento das agulhas.
Pensei em fazer uma visita no hospital, mas não sabia em qual ela havia sido internada, entao resolvi parar e perguntar. Levei um susto quando fui recebido pela jovem que admirava. Vestia preto e seus olhos tnham olheiras profundas. Era nítido que estivera chorando.
-Com licença, é que gostaria de visitar a dona Ana e queria saber em que hospital está internada.
Os olhos da jovem se encheram de lágrimas e tive que segurá-la para que não caísse no chão. Ela chorou longamente em meus braços; cada soluço era uma pontada em meu peito. Me preparei para o pior.
-Desculpe, mas minha avó faleceu essa semana. O enterro foi na quarta. Se soubesse que eram próximos, teria te avisado.
Senti meu coração se encher de tristeza. Ela me convidou para tomar uma xícara de chá, mas não quis incomodar. Estava na soleira da porta quando ela perguntou meu nome. Quando respondi, seu semblante mudou.
-Um instante!
Ela correu pra dentro e voltou em um instante com um pacote nas mãos.
-Minha avó estava fazendo isso para você. Estava quase pronto quando ela foi internada. Só costurei as partes e fiz o acabamento. Creio que ela gostaria de ter lhe entregue em mãos, mas... Devido às circunstâncias...
Vi que estava sendo um grande esforço para ela me dizer aquilo entã a abracei, peguei o pacote e lhe dei um beijo na testa.
-Muito obrigado. Vou guardar com carinho.
-Use, por favor! Ela teria gostado mais que usasse.
Acenou para mim e tornou a entrar. Olhei para o pacote em minhas mãos e voltei para casa ansioso, curioso sobre o que seria o pacote. Chegando em casa, abri o embruho e percebi que era um suéter. Ela tinha começado a tricotar as partes pouco depois de termos começado a conversar, eu reconhecia o ponto e as cores. Meus olhos ficaram marejados e cobri o rosto com o suéter.
No dia seguinte, Fiz questão de ir até a casa dela agradecer sua neta. Perguntei seu nome e ela me respondeu que era Carolina. Descobri que sua avó não tinha herdeiros vivos, logo a casa ficaria para ela mesma.
-Vai ser difícil continuar aqui sem ela, mas não tenho outro lugar pra ir.
Foi nesse momento que criei coragem para lhe falar sobre minha admiração. Levou um tempo para que nosso relacionamento mudasse de fato para algo mais romântico e profundo, mas não me arrependi de esperar. Ela se tornou a mãe de meus filhos. Hoje, nos sentamos do lado de fora de nossa casa, cada um em sua cadeira de balanço. Ela coloca um cesto do lado e tricota, enquanto eu leio o jornal. Todo fim de semana, r ecebemos a visita de nossos filhos e netos. E de tempos em tempos, visitamos o túmulo de Ana. Sempre me lembro com carinho daquela senhorinha que, tão gentilmente, dividiu seu tempo comigo, um rapaz que mal sabia o que queria da vida.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Desafio dos 30 Dias - Olá Outono

Não é outono. Mas podia ser!

Senti o vento soprando e fechei os olhos. Logo as folhas estariam trocando suas cores de verde para marrom, se desprenderiam de seus galhos e se jogariam de cabeça em uma aventura sem retorno até o chão. Quanta ciência e filosofia envolvida nesse ato tão simples e singelo? O amadurecimento. Deixar o ninho. Aceleração e gravidade. Espirais. Formas geométricas. Sons. Morrer. O fim.
Abri os olhos e me levantei, pronta para encarar um novo dia. Sai para fora e aproveitei para recolher as folhas no jardim. Minha cachorrinha adorava se jogar nas pilhas de folhas. Eu também. Mas este ano não teria ninguém se jogando nas pilhas. Instintivamente fiz uma pilha maior do que devia, que ficou difícil de ensacar. Pensei em acender uma vela mais tarde. Então senti um pingo. Voltei meus olhos para o céu.
Começava a chover. Baixei os olhos e vi uma das vizinhas correndo para pegar as roupas do varal, enquanto outra gritava para os filhos entrarem, ou iriam se molhar. Abri meus braços e fechei meus olhos. Venha chuva! Me lave! Tire de mim toda essa tristeza! Tire de mim toda essa dor! Minhas lágrimas se misturavam com as gotas que caiam em meu rosto e rolavam caminho abaixo. Tudo, invariavelmente, voltaria para a terra, fossem as folhas, a água, minha cachorrinha ou eu. Do pó viemos, ao pó retornaremos.
Fiquei estática por tanto tempo quanto aguentei. Minhas pernas doíam um pouco e meu corpo começava a ficar gelado quando alguém me enrolou em uma toalha.
-Vamos pra dentro querida, ou vai ficar doente.
Não resisti. Os braços gentis me levaram de volta para dentro e me colocaram sentada em uma poltrona próxima à lareira. O fogo estava aceso. Estiquei minhas mãos em direção a ele. O calor fazia com que tivesse a sensação que podia tocá-lo novamente. E se pudesse me unir àquele fogo? Será que sentiria novamente o calor e a felicidade que sentia quando estava com ele?
-Que está fazendo?
Gentilmente tiraram minha mão do fogo. Encarei minha mão, que começava a ficar fria quando colocaram uma xícara nela. Uma xícara quente.
-Tome um pouco, vai te fazer bem.
 Encarei a xícara por alguns instantes e tentei beber. Estava quente, mas não o suficiente para queimar. Era como amor de mãe, quente na medida certa. Não queima ao ponto de te machucar. Não abandona o corpo se este não lhe serve direito. Na medida certa para te acalentar. Era chá. Imaginei que estava tentando me manter calma.
Senti algo felpudo sendo colocado nas minhas costas e me envolvendo. Lembrei dos abraços dele. Uma lágrima começou a rolar em meu rosto. Uma mão gentil afagou minha nuca.
-Quer mais alguma coisa?
Fiz sinal negativo e ouvi seus passos se distanciando de mim. Quis impedir. Tinha sim algo que eu queria. Companhia.
Não me esqueçam! Não me deixem pra trás! Eu estou aqui! Venham me buscar, por favor!
Olhei para fora pela janela. A chuva continuava lá fora. Um vento forte fazia com que o galho de uma das árvores batesse em uma das janelas de um dos quartos do andar de cima. Era assustador. Me encolhi na poltrona e me cobri inteira com o cobertor.
Escuro. Respirei fundo. Percebi que minha respiração estava ofegante. Tentei me acalmar e não consegui. Queria parar. O coração começou a acelerar. Quis gritar, mas minha voz não saia. Abracei os joelhos e chorei. Estava sozinha, mais uma vez. Como todas as vezes. Era o fim de mim. Era o fim de todos nós. Senti meu corpo pesar e deixei que a gravidade o levasse. Não me importava mais.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Desafio dos 30 Dias - Um verão quente

O título original era "Indian Summer", mas eu nunca estive na Índia e não sei qual a diferença das estações lá. Imagino que seja quente, então... Daí a adaptação do título pra facilitar um pouco a escrita dessa história. Espero que gostem!

Quando era pequena não sentia tanto calor no verão. Usávamos roupas mais curtas, mas não me lembro das pessoas expondo todo o corpo na rua como se fosse a coisa mais normal do mundo. Hoje em dia, as pessoas batem no peito e dizem que amam o calor para, quando fica calor, ficarem se lamuriando pelos cantos de como está quente. Quem gosta de calor mesmo é gente que tem ar-condicionado em casa e no trabalho. Não é o meu caso.
Quando fica calor, gosto de me vestir com roupas mais leves. Agora, no entanto, tenho um uniforme de trabalho que tenho que usar. O tecido dele é muito grosso, logo fico sentindo calor do início ao fim do dia. Mas tento não reclamar. Lembro de uma vez que estava frio e vi meu irmão só de camisa e bermuda. Perguntei se ele não estava com frio e sua resposta foi que "eu gosto da sensação do frio". Parei de reclamar do frio, pois apesar de não ser a sensação térmica que eu gosto, posso usar roupas que me deixam quentinha, e isso me agrada. No calor, no entanto, não dá pra sair pelado na rua. E eu definitivamente não consigo me vestir com roupas super decotadas, que mostram todo o corpo. Gostava de usar vestidos, mas com a implementação do uniforme, isso se tornou um pouco mais complicado.
Meu uniforme foi feito para a meia estação. Então, mesmo agora que ainda não é verão, já consigo imaginar como vai ser difícil trabalhar com ele. Tem dias tão quentes que volto pra casa toda queimada, só de ficar uma hora exposta ao sol. Lembro de uma colega de trabalho do meu trabalho anterior que, quando cheguei no trabalho depois de passar dois dias fazendo pesquisas na viela das marmelas, me disse que eu, em dois dias lá, fiquei mais bronzeada que ela se ficasse uma semana na praia. Eu gostava daquele emprego.
Hoje quase não tomo sol. Mas sinto o calor. Odeio o calor, mas não reclamo. Tenho um pouco de raiva daquelas pessoas que dizem amar o calor mas não perdem a oportunidade de reclamar dele. Se gostam, deviam estar felizes com ele, não insatisfeitas e reclamando. É como faço com o frio. Penso às vezes que o ideal seria me mudar para uma parte mais fresca do meu país. Sei que existe, mas não tenho coragem de abandonar o que tenho pra trás. Queria ter um desprendimento maior com tudo isso. Tanto com o tempo, quanto com o lugar e as pessoas.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Desafio dos 30 Dias - Legal e Crocante

Era pra ter postado ontem, mas não consegui. Postando hoje, por questão de consciência.

Quando você pensa em comida, em qual delas pensa? Salgado ou doce? Fruta ou legume? Macio ou crocante? Para algumas pessoas é fácil responder qual a comida preferida. Para outras, a que menos gosta. Para mim, nenhuma delas é fácil de responder. Já experimentei bastante coisa mas também tenho noção de que não conheço vários ingredientes e vários outros sabores. Mas existem coisas que eu sei com certeza que não como. Não misturadas.
Por exemplo, eu adoro amendoim. E castanhas. Não sou tão fã de nozes, mas como. Se você me der um sorvete, eu vou comer ele feliz e contente. Se colocar calda, melhor ainda. Mas não coloque amendoim! O crocante da casquinha combina com o sorvete. O crocante do amendoim, não. Óbvio, essa é só a minha própria opinião.
Não da mesma forma, posso citar a pipoca. Gosto dela com sal, doce ou com pedacinhos de bacon. Mais que isso, pra mim, é exagero. Como a batata frita, que quando vejo perguntarem se quero que coloquem queijo, molho, ketchup, maionese, entre outros, penso que estão desvirtuando a batata.
Uma das dificuldades de se desenvolver gastrite é que você percebe que tem várias restrições e que várias delas incluem coisas que você gosta. Desde frutas e saladas até o molho da lasanha. Tudo se torna um problema, algo a ser observado e cuidado.
Você sabia que tem um jeito certo de mastigar? Pois é. mesmo que a comida seja macia, o ideal é mastigar bem antes de engolir. Ainda estou tentando descobrir como se faz isso com comidas mais líquidas como sorvete e até mesmo suco. Falando em suco, você sabia que seu organismo encara o suco como comida?
O mundo está cheio de comidas, sabores e novidades. Algo que você comeu e não gostou em um momento da vida pode passar a não ser tão ruim em outro. Não estou dizendo que você irá ver aquela comida como sua favorita, mas definitivamente vale a pena tentar de novo, principalmente se for preparado por outra pessoa. A mão do cozinheiro faz toda a diferença. É como o amor. Você não vê, você sente.