Esta fanfic é do jogo Best Served Cold. Saiu uma demo de uma continuação, Last Night Last Call que se passa muitos anos depois dos acontecimentos do primeiro jogo e, pasmem, o Peter está lá. Eu joguei um pouco da demo no Vem Aí da Steam que aconteceu esses dias e, por conta dos desdobramentos que aconteceram, a história do Peter e da bartender de Best Served Cold finalmente terminou de se formar na minha cabeça. Não é uma história com final feliz, mas é uma história. Espero que gostem!
A bartender estava ansiosa desde o último caso que ajudou a resolver. Não conseguia parar de pensar em Sandra e imaginar que tipo de relação ela e Peter tiveram no passado. Ela havia tentado convencer a outra que poderia continuar ali, em Bukovie, mesmo sendo responsável pelo ataque ao Vincent. Tudo se resolveria. Mas quando ouviu do próprio Peter sobre como Sandra estava dormindo em seu apartamento enquanto ele dividia o sofá com o cachorro, as histórias de quando eram jovens, os detalhes de como se sentia em relação a ela… Podia ser passado, mas havia uma dor quase palpável em suas palavras e seu semblante a convencera de que ele não estava sendo totalmente sincero em relação aos seus sentimentos. Talvez ele mesmo não tivesse certeza. Então ela fez a única coisa que podia: convencer Sandra a se afastar. Pelo bem de todos. Pelo bem dela mesma.
Mas, mesmo depois de ajudar o detetive Mertens a livrar Bukovie de várias pessoas más, ainda não conseguia se sentir segura. Pelo contrário; quando retornava do trabalho ilegal, andava com atenção redobrada perto de becos e esquinas, principalmente os mal iluminados. Naquela noite específica, não conseguia chacoalhar a sensação de que estava sendo seguida. Chegou em casa e trancou a porta e a janela. Morava num sobrado pequeno de dois cômodos, que foi o que conseguiu na época em que ainda tinha que pagar sua dívida. Mesmo depois que Karla havia se “retirado” dos negócios e a dívida havia sido perdoada, permanecia ali, pois ainda era um dos lugares mais baratos próximo ao seu trabalho no bar clandestino. Peter era seu cobrador e ela se apaixonou imediatamente quando o viu. Foram muitos casos resolvidos até o dia em que ele se recostou no balcão e a chamou de amor. Coincidentemente tinha sido no caso de Vincent, e após todo o desdobramento da história de Sandra, ela não conseguia decidir se ele realmente a amava ou se estava apenas tentando proteger uma amiga que fora uma paixonite de juventude.
Naquela noite, ele não tinha aparecido no bar e ela se preocupava, dados os últimos eventos. Mal acendeu a luz do quarto quando viu um vulto do lado de fora da janela. O cabelo bagunçado, o sobretudo e a fumaça de cigarro subindo fizeram com que o reconhecesse imediatamente.
— Peter! O que está fazendo aqui?
Não teve coragem de fazer mais perguntas quando percebeu que ele tinha um ferimento no braço.
— Só vim ver como você estava, amor. Não consegui passar no bar e precisava me certificar que você estava bem.
— Mas você está ferido…
— Ah, isso? — ele escondeu o braço atrás do corpo — Não é nada com que você precise se preocupar.
— Quer entrar? Eu posso fazer um curativo.
— Só um curativo?
Ela sabia que ele estava provocando, mas sentiu as maçãs do rosto se aquecerem mesmo assim. Era de se esperar que um homem com uma cicatriz no rosto fosse causar certo medo, mas não era o caso com Peter. Se a bartender tinha algum arrependimento, era pelas escolhas de relacionamentos que tivera até ali. Caso tivesse feito escolhas mais saudáveis, talvez tivesse se apaixonado por Hugo. Mas não, anos escolhendo homens com um dedo podre fizeram com que toda sua paixão fosse destinada àquele homem ferido que estava entrando em seu quarto pela janela.
— Você sabe que eu podia abrir a porta, não é mesmo?
— Assim é mais rápido e chama menos a atenção.
— Tenho minhas dúvidas a esse respeito — ela disse, enquanto pegava uma garrafa na cabeceira da cama — Aqui, segure.
Era vodka. Ele olhou para ela, confuso, enquanto ela ajudava a tirar o sobretudo.
— Eu sou uma bartender, não uma enfermeira. Preciso de pelo menos um gole disso se quiser mesmo fazer um curativo decente. E vai arder, porque eu preciso limpar, então beba um gole também. E sente-se na cama.
Enquanto ela procurava o estojo de medicamentos ele a encarou, incrédulo. Olhou para a cama de solteiro feita de metal.
— Vai ranger um bocado…
— O que disse?
— Ah… Que isso não é nada, eu posso dar um jeito chegando em casa.
— Peter, você já entrou pela minha janela. — ela trouxe o estojo de medicamentos e colocou em cima da cama, enquanto começou a desabotoar o colete por cima da camisa — Nós dois sabemos que você não vai pra casa essa noite — ela disse, tirando o colete e começando a desabotoar os primeiros botões da camisa, olhando diretamente para o braço dele, tentando medir o tamanho do corte em meio ao sangue — Talvez eu tenha que dar alguns pontos… Pode se sentar, eu vou buscar alguns panos para limpar o sangue primeiro.
Quando voltou, seu foco não estava mais no braço ferido, então notou como Peter tinha um bom físico. Não era algo que se reparasse o tempo todo, já que ele andava com várias camadas de roupa. Ele estendeu a garrafa e ela bebeu, voltando a atenção ao que tinha que ser feito.
O corte não era muito profundo, então não precisaria de pontos, mas ela fez um curativo um pouco mais reforçado, por via das dúvidas. Respirava profundamente, tentando acalmar o próprio coração que palpitava no peito com tanta força que tinha a nítida impressão que, da distância que ele estava, Peter com certeza estava ouvindo. Começou a reparar nas cicatrizes que ele tinha naquele braço, no ombro, no peito... Foi instintivo que, ao terminar o curativo, seus dedos começaram a traçar as linhas de algumas dessas cicatrizes.
— Eu não vou te contar a história delas.
— Não precisa.
Sentiu a mão dele em seu rosto, levantando seu olhar até que seus olhos se encontrassem, seu polegar afagando de leve sua bochecha. Então se aproximou dele até que seus lábios se tocassem. Ela o empurrou mais para o meio da cama e se aninhou em seu peito, enquanto aprofundava o beijo. Ele tentou abraçá-la, mas grunhiu.
— Cuidado, seu braço…
— Talvez devêssemos esperar uma próxima vez — ele disse, segurando a camisa para se vestir.
— Não, por favor — ela o segurou pelos ombros — É só irmos mais devagar e com mais cuidado.
— Devagar assim?
Ele começou a beijar seu pescoço e despí-la de suas roupas. Seus dedos roçavam propositalmente em sua pele a cada movimento, deixando-a arrepiada. Lá estava ele, com aquele sorriso provocador que fazia com que cada noite servindo bebidas em plena proibição valesse a pena.
— Vem cá — ele disse após se deitar na cama, dando batidinhas no colchão — Se não nos mexermos muito, vamos ficar bem.
— Primeiro vou tomar um banho. Não tive a oportunidade de tomar um desde que cheguei do trabalho.
Em dias normais, ela tomava um banho rápido, vestia um pijama confortável e ficava longamente encarando seu quadro de pistas, tentando descobrir novos detalhes de algum caso que ela obviamente não deveria estar investigando, e se deitaria logo quando se desse por satisfeita com suas deduções. Mas naquele dia ela fez questão de desenterrar uma camisola que usava nos dias mais quentes da gaveta. Talvez não fosse a melhor das ideias, mas era melhor do que vestir o velho pijama cheio de remendos. Tomou seu banho e voltou para o quarto. A luz estava apagada, mas a lua iluminava o quarto. Ele a esperava, claramente desperto.
— A-acho que vou pegar mais um cobertor.
— Bobagem. Eu te esquento.
Derrotada, ela se deitou com cuidado, encostando as costas no peito dele.
— Boa noite, Peter.
— Boa noite, amor.
Quando Peter acordou o sol ainda nem tinha surgido no céu, e a bartender dormia como uma pedra sobre seu braço bom. Seus cabelos estavam soltos e tinham cheiro de jasmim. Esticou a mão para tocá-la, mas recuou por um segundo.
— Você destrói tudo que toca!
Ele fechou os olhos com força, tentando afastar aquela sensação ruim que tinha de tempos em tempos. Já havia pensado em desistir de se relacionar de forma romântica, mas sempre existia uma próxima mulher. E elas sempre acabavam sumindo. Dessa vez, ele estava decidido a não deixar que isso acontecesse. Então percebeu que ela começou a se mexer, se virando para encará-lo.
— Bom dia.
Ainda de camisola ela foi para a cozinha preparar algo. Pensou em pão com queijo e café. Estava organizando os ingredientes quando percebeu que Peter estava encostado na entrada, de braços cruzados, observando.
— Lembra quando você começou a me chamar de amor? — ela começou a falar enquanto passava um café — E nós fizemos planos de uma noite regada a gin e um café da manhã? Bem — ela fez uma pausa, cruzando os braços e olhando de volta para ele — Eu nunca imaginei que seria tão cedo, nem que seria como foi, então não tenho muito a oferecer, mas se quiser algo específico…
— Tem algo bem específico que eu quero, na verdade — ele a cortou, se aproximando.
— E o que seria?
Peter a pegou pelos braços e a rodou, prendendo-a na parede com os braços para o alto, uma perna entre as dela.
— Você.
A intenção era apenas fazer com que ela ficasse corada. Ele adorava ver aquela expressão em seu rosto. Mas foi surpreendido quando ela arqueou o corpo para beijá-lo. Ele soltou seus braços e a puxou pela cintura para mais perto, enquanto ela o beijou com uma necessidade que não existiu na noite anterior. Algo estava errado.
— Ei, devagar, amor — ele se forçou a afastar os lábios — Eu não vou a lugar algum.
Ele sentiu quando as pernas dela bambearam, mas não conseguiu evitar que ela deslizasse pela parede até sentar no chão com um suspiro longo.
— Você promete?
— E para onde mais eu iria?
Ela baixou os olhos para as próprias mãos, que estavam inquietas.
— Na verdade — ela começou, e sua voz era pouco mais que um sussurro — depois de tudo que você me contou sobre a Sandra, e como ela teve que ir embora, eu — ela levantou a cabeça e o encarou diretamente — achei que era apenas uma questão de tempo até você ir atrás dela.
— Amor, o que houve entre eu e a Sandra ficou no passado. Eu estou com você agora.
— Então, me chame pelo meu nome.
Quando ele disse seu nome, ela se sentiu feliz e acreditou. Ele ajudou a levantá-la e propôs que fizessem uma visita à casa dele um dia desses. Ela terminou de preparar o café da manhã e ele voltou para casa, prometendo visitar o Nightcap naquela noite. Tudo parecia bem, até a visita de Hugo alguns dias depois.
— Sei que te ofereci de continuarmos trabalhando juntos, mas as coisas estão ficando perigosas. Ouça meu conselho, saia da cidade, se for possível. Se não, se esconda. Sinto que as coisas vão ficar feias em breve e não posso garantir sua segurança.
Aquilo a assustou, mas ela não comentou nada a respeito com Peter. Tudo que fez foi recusar o convite dele para ir até a casa dele. Não podia correr o risco de colocar um alvo em suas costas, não depois de tudo que tinha passado para garantir sua inocência. Ela resolveria sozinha, era o que pensava.
O inverno já estava quase no fim, mas a neve ainda caía em Bukovie. Naquela tarde, enquanto a bartender preparava a guarnição, ouviu a porta do bar clandestino abrir. Seu sangue gelou, lembranças do caso da Sandra passando por sua mente no intervalo de um piscar de olhos.
— Estamos fechados.
Em qualquer outro dia, teria sido mais cortês. Mas a pessoa que entrou estava encapuzada e vinha com as mãos nos bolsos. Nada daquilo lhe passava uma boa impressão. Ela não tinha para onde correr, mas podia tentar chamar a atenção. Correu na direção da sineta de balcão e começou a pressioná-la rápida e incessantemente, na esperança de que Ilya a ouvisse. A pessoa encapuzada não recuou, pelo contrário, assim que percebeu sua movimentação, correu em sua direção, tirou uma faca de um dos bolsos do casaco e fincou em seu estômago. A bartender viu seus lábios se contorcer em um sorriso e ouviu uma voz masculina.
— Você já era.
Ilya conseguiu tirar a bartender do Nightcap antes de pedir ajuda. Seria pior se encontrassem o bar clandestino naquele momento, já que Vincent não estava plenamente recuperado de seu próprio ataque. Peter ficou sabendo o que houve ainda naquele dia, mas não pode ir até o hospital vê-la. Ela não teve a mesma sorte de Vincent, sua ferida foi profunda o suficiente para que os médicos não conseguissem salvá-la. Peter ficou devastado por um tempo, até que a guerra que todos temiam finalmente explodiu. Ele não tinha mais nada a perder, foi o que pensou quando se alistou. Não muito tempo depois, soube que o detetive Hugo Mertens também havia sido assassinado. Não era difícil ligar os pontos e descobrir que tudo aquilo era uma manobra política para se livrar de possíveis pedras no caminho. Hugo sabia demais, e por causa dele, a bartender também sabia. Só que agora ele não tinha nem mais alguém para culpar pela morte dela, pois o detetive também estava morto. Quando voltou da guerra, acabou conseguindo um posto como detetive na polícia de Bukovie. Aquele era o primeiro passo, pensou. Sabia o que tinha que fazer, só precisava de tempo. E agora, tempo era o que mais tinha.

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