sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Refeição Completa de Collette

Há alguns dias encontrei meus rascunhos de alguns crossovers que achei que seria legal escrever. Faz tempo que não posto nada aqui no Blog, mas talvez eu traga minhas outras histórias (e até escreva novas, como essa) para cá também. Espero que gostem!

Era um belo dia de outono quando Collette recebeu uma carta muito elegante. O remetente era, supostamente, alguém sobre quem ela só tinha lido em revistas, e ela tinha suas dúvidas sobre a veracidade do conteúdo. Mesmo assim, sua curiosidade falou mais alto. Estava escrito:

Senhorita Collette, espero que esta carta a encontre com boa saúde. Meu nome é Pierre e, além de ser um gourmet, presto serviços como juiz de um concurso de culinária entre dois vilarejos do interior. Chegou ao meu conhecimento que você é uma entusiasta da culinária e esse é o motivo de meu contato. Se não se importar, consideraria me ajudar? É uma vergonha admitir, mas fiquei muito doente e meu paladar foi afetado, impossibilitando-me de cumprir meus deveres no concurso de culinária. Os prefeitos Rutger e Ina foram informados e me perdiram desesperadamente para indicar um substituto. Graças ao meu trabalho, conheço um bom número de outros gourmets, mas nenhum me pareceu entusiasmado com a ideia de ir até alguns vilarejos no interior apenas para julgar o concurso deles, ainda mais em pleno final de semana. Sei que o tempo é curto e que é um favor audacioso a se pedir, já que não nos conhecemos pessoalmente, mas gostaria de pedir que você trabalhe como minha substituta para eles. Estou enviando meu cartão com minhas informações de contato dentro do envelope, bem como uma passagem e o endereço para onde você deve comparecer, caso concorde com meu pedido egoísta. Você será paga pelos prefeitos ao final do concurso e pode ser uma experiência interessante para uma jovem promissora como você. Ficarei aguardando seu contato para saber se poderá me ajudar. Com os melhores cumprimentos, Pierre.

Agora, Collette não era tão ingênua a ponto de acreditar tão facilmente naquela carta. E se aquilo fosse uma armadilha? Então, ela decidiu investigar mais sobre as informações que tinha recebido. Primeiro, olhou as informações do cartão de Pierre. Não tinha como confirmar se elas eram verdadeiras só de olhar, então ela verificou a passagem. Ela pediu ajuda para chegar até a estação de trem e perguntar sobre o tempo de viagem e se a passagem era válida.

— É uma viagem um pouco longa. Se pretende mesmo chegar lá pela manhã, te recomendo pegar o trem na sexta-feira, na hora do almoço. Assim, pode chegar antes do anoitecer e descansar. Você está indo visitar parentes? Seria bom avisá-los para te buscarem na estação.

Quando retornou, passou o resto da tarde na casa de banho, fazendo perguntas aos visitantes. Ela conseguiu reunir um pouco de informação não apenas sobre Pierre, mas sobre os dois vilarejos também. Alguém até lhe deu um mapa para que ela pudesse traçar seu caminho até o lugar certo. Ela não pôde evitar o nervosismo, mas decidiu aceitar a oferta, entrando em contato com o gourmet para informá-lo de sua decisão.

— Muitíssimo obrigado, senhorita Collette! Quando voltar, fale comigo. Caso tenha interesse, podemos montar uma parceria.

A garota não conseguia imaginar no que uma parceria com o famoso gourmet poderia ajudá-la, mas ainda assim achou uma oferta interessante demais para apenas deixar passar. No dia seguinte, depois de tomar um café da manhã reforçado, ela preparou uma bagagem leve e foi para a estação de trem, onde pôde usar a passagem para chegar ao seu destino. A mudança de cenário foi sutil, de forma que ela quase podia jurar que ainda estava em Sharance. Ao sair do trem, ela se surpreendeu ao ver alguém esperando perto de uma carroça com um papel com seu nome escrito.

— Olá — ela cumprimentou. — Eu sou Collette.

— Graças à Deusa! — o rapaz disse, estendendo a mão. — Olá, sou o Philip. O senhor Pierre avisou a prefeita Ina que você estava vindo, então ela me pediu para te esperar na estação. Tem algo que você queira fazer antes de irmos para o vilarejo?

— Não, na verdade não. Vamos lá.

Pegar o trem tinha sido uma experiência, mas andar de carroça era outro nível. Enquanto o trem tinha aquele ritmo rápido e um barulho estrondoso o tempo todo, a carruagem era bem menos barulhenta, mas também muito menos confortável. Philip tentou puxar conversa, mas Collette ficou com medo de que ele fosse um dos competidores e estivesse tentando ganhar o favor dela.

"Não posso me deixar enganar," ela pensou enquanto segurava com um pouco mais de força a alça da própria mala. Ele deve ter percebido, pois o resto da viagem foi em silêncio, o que não a incomodou,  já que pode observar o cenário.

— Tem algum lugar onde eu posso descansar antes do concurso?

— Conhecendo aqueles dois cabeças duras que são os prefeitos, tenho certeza de que eles preferem que você aguarde no topo da montanha. Mas não se preocupe, eu conheço uma pessoa por lá que talvez possa te emprestar uma cama. — Ele mal terminou a frase quando o estômago de Collette roncou alto o suficiente para ele ouvir — E talvez ela possa te oferecer algum aperitivo antes do concurso. Eu mesmo me ofereceria para te preparar algo, odeio quando alguém passa fome, mas — ele respirou fundo e sua expressão ficou bem solene — no fim das contas, eu também vou participar do concurso.

— E vir me buscar não te atrapalhou?

— De forma alguma! O bom de se conhecer muitas pessoas é que, com o tempo, elas começam a te dever favores. Acho que está na hora de eu cobrar alguns desses favores.

Mesmo não querendo, Collette não pode evitar de imaginar Philip coagindo alguma pobre pessoa inocente a passar sua própria entrada no concurso como uma troca de favores. Quando chegaram em determinado ponto da montanha, Philip a deixou com uma garota de cabelos rosa antes de retornar montanha abaixo. Ela se apresentou como a Oráculo. Sem nomes, apenas o honorífico. Ofereceu-lhe chá com biscoitos e, apesar daquilo estar longe de ser o suficiente para saciar sua fome, a garota lhe assegurou que, dentro em breve, a situação se resolveria. Collette teve sonhos com trens, carroças e cavalos antes de tudo tremer.

— Ei, acorde, está na hora.

Era Philip novamente, e dessa, pronto para levá-la para o topo da montanha. Quando chegaram onde todos os concorrentes já estavam reunidos, ela sentiu um nervosismo repentino do nada. Afinal, ela não era uma gourmet. Por que ela aceitou um pedido desses? E se ela falhasse? E se todos ficassem desapontados com o trabalho dela?

— Olá, querida! Pierre nos falou sobre você — uma mulher de aparência elegante e roupas vermelhas veio em sua direção e a cumprimentou.

— Estamos muito gratos por você ter vindo. Pierre não é de ficar doente, então ficamos realmente preocupados quando ele nos contou sobre sua condição e sobre nos enviar um substituto — disse um cavalheiro loiro que, obviamente, estava preocupado com a troca de juízes.

— Espero não decepcionar — disse Collette, finalmente sentindo o peso de sua responsabilidade.

Mas a sensação durou pouco. Quando ela conheceu os concorrentes e viu seus pratos, pôde entender por que Pierre faria questão de sair de seu caminho para julgar aquele concurso de culinária. Ambos os vilarejos tinham ingredientes e métodos culinários muito únicos e isso se refletia nos detalhes. Ela também não pôde deixar de notar que uma garotinha havia entrado no concurso por uma das cidades, com um prato que obviamente tinha ficado tempo demais no fogo.

"Isso significa que este concurso é acolhedor para qualquer um que queira participar", ela pensou.

— Bem, se todos estiverem de acordo, vou começar.

Ninguém pareceu se opor, então ela começou pela refeição que imaginou que seria a mais difícil de engolir.

— E-eu serei a primeira?

Collette assentiu enquanto provava. De fato, era tão ruim que mesmo ela, que tinha facilidade de comer qualquer coisa, quase chorou. A prefeita trouxe um copo de água e murmurou um "sinto muito". Collette olhou para a garotinha, que a encarava com os olhos marejados.

— Ei, não desista. Dessa vez, você não conseguiu, mas tenho certeza que se você continuar tentando, vai conseguir cozinhar um prato tão bom quanto qualquer outro.

Ela nem tinha terminado de provar todos os pratos e já estava fraquejando. No entanto, depois do prato falho, ela se surpreendeu com o cuidado, o carinho e o sabor dos pratos de todos os outros competidores. Ao ponto que seu apetite se viu revigorado, e ela quase acabou com um ou outro prato que lhe foi oferecido durante o concurso.

— Ahem... Acho que chegou a hora de eu dar meu veredito. Eu consegui sentir a paixão que cada um de vocês colocou em cada prato, em suas sutilezas e suas explosões de sabores. Os vencedores são os competidores daquela mesa.

Houve uma explosão de risos e lágrimas. Um pedido de desculpa e abraços. Collette percebeu que aquilo era mais que apenas um concurso para aquelas pessoas. Tanto a vitória quanto a derrota, para aquelas pessoas, era o combustível e a determinação para fazer melhor na próxima vez.

— Muito obrigado por vir, querida Collette. Fico honrado que tenha nos escolhido como vencedores. Aqui, esse é o pagamento combinado.

— Imagino que você vai querer descansar antes de retornar? Você deve estar exausta, e não faz bem viajar logo após comer. Venha, vou te mostrar Konohana. Ela é linda na primavera, mas mesmo nessa época do ano, a paisagem é mais agradável. Afinal, você não vai querer ficar em um lugar que fede a bosta de vaca.

Rutger estava tão feliz com a vitória que ou não ouviu ou ignorou o que Ina disse. Ela mesma não se importou e começou a descer a montanha a pé com Collette logo atrás. Parecia injusto ter que andar depois de uma refeição tão abundante, ela sentia que podia descer rolando a montanha se alguém a ajudasse, mas se deu por feliz que ao menos era uma descida. Ina lhe entregou uma passagem de trem sem data. Explicou que, se ela quisesse ficar um pouco antes de ir, que era bem-vinda e que, desde que Lilian e Philip chegaram, a vida nos vilarejos tinha mudado. Collette obviamente não tinha interesse algum naquilo, mas continuou ouvindo, seus pensamentos voando para longe, a voz de Ina embalando seu sono.

Quando acordou, percebeu que Philip estava sentado numa poltrona ao lado, lendo uma revista.

— Eca, você estava me espiando?

— Não, só achei que seria rude te acordar, então estava esperando que você acordasse sozinha — Ele disse enquanto colocava a revista de lado — Então, já decidiu o que quer fazer? Ainda dá tempo de pegar o último trem de volta para Sharance.

— Acho que quero ir, mas — Ela se espreguiçou e olhou para ele, com olhos famintos — Será que eu posso fazer um lanchinho antes?