Hoje a história não vai ser nem pequena nem fofinha. Vai ser agridoce, como na vida real. Como na minha vida.
Lembro da sua mãe tentando descobrir que número de aro de anel eu usava. Ela me contou suas intenções e me pediu pra fazer surpresa. Nem precisei fingir, porque pra mim foi realmente uma surpresa quando você tirou a caixinha da bolsa, ajoelhou no meio do metrô e me pediu em namoro. Lembro que te beijei e lembro que algumas pessoas até aplaudiram. Por muito tempo aquele anel representou, pra mim, nosso relacionamento. Usava o tempo todo. Você era importante pra mim dessa forma.
Então veio o primeiro pedido de término. Nós nos vimos depois daquilo e eu quis te devolver o anel. Você não aceitou. Acabei ficando com ele e não muito tempo depois, voltamos. Você mesmo disse que durante aquele tempo longe agimos como se ainda estivéssemos juntos. E realmente, nada tinha mudado. Tivemos nossos momentos bons e nossos momentos difíceis. Você hesita demais. E eu me dedico demais. Mudei por você, me privando de muitas coisas. Você também acabou se privando de coisas que eram importantes pra você, apesar de ser em uma escala bem menor que a minha.
Com o tempo, apesar de continuar querendo manter o relacionamento, comecei a perceber várias coisas que me incomodavam. Você me elogiava, eu ficava feliz e passava. Mas com o tempo, a sensação voltava. Nossos passeios se resumiam a um único tipo de encontro, uma experiência que eu já tinha tido e não tinha gostado. Sempre que eu tentava fazer algo diferente você se esquivava. "Vamos no ano que vem". Se eu soubesse quais eram suas intenções, teria te forçado a ir. Se eu soubesse quais eram suas intenções, teria te cobrado mais. No entanto, minha natureza até hoje foi a de dar, a de me entregar. Pelo menos não tenho arrependimentos.
Já pensei em como seria se te visse de novo. Já me imaginei dando um tapa no seu rosto por você não ter tido coragem de terminar as coisas direito. Já senti raiva de não ter conseguido te devolver o anel. Penso que estou bem até ter algum tipo de recaída e começar a chorar de novo. Você já sabia que pra mim ia ser mais difícil. Eu nunca aceitei. Mesmo agora, falo e repito que terminamos pra ver se entra na minha cabeça minha atual e real situação. Estou sozinha de novo.
Você continua falando comigo como se tudo estivesse bem. Pra mim não está. Eu sinto sua falta e sei que vou sentir por muito tempo até me acostumar com a minha nova realidade. Não pretendo voltar tão cedo. Você vai continuar hesitando e eu vou continuar sofrendo. As coisas não deviam ser assim. Por essas e outras razões que disse que, da próxima vez que você quiser ter algo sério, que tenha certeza que é pra valer. Eu não namoro pra passar o tempo nem pra me divertir. Eu me dedico de corpo e alma. Acho que o mínimo que mereço é algo equivalente. Se não for capaz de me dar isso, então continue sua vida e eu continuo a minha. Afinal, foi o que me disse pra fazer. Seguir a vida. Está difícil, mas é o caminho que tenho. No início eu queria te devolver minha aliança mas, agora, o que eu queria mesmo era que você me desse a sua. Você começou e terminou tudo isso. Foi uma brisa mansa que se tornou um furacão. Eu não posso esquecer, mas vou carregar comigo as lembranças pra tentar não passar de novo por tudo isso. A lição que fica é não deixar que minha felicidade dependa dos outros, muito menos de meros simbolismos. É que eu tenho que aprender a lidar melhor com as pessoas que gosto, pois a maioria delas não faz por mim metade do que faço por elas, e isso é injusto. Que se relacionamentos fossem realmente como uma troca, eu estaria perdendo muito e os outros ganhando muito. E eu estou cansada de ser a única perdendo.
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
domingo, 29 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Céu
Historinha pequenininha e bonitinha para aquecer os corações nessa noite fria.
Quando eu era pequena gostava d ficar do lado de fora de casa, deitada na grama, olhando pro céu. Minha mãe até me mandava ir brincar com as outras crianças, mas elas eram muito agitadas. Tinham vezes que eles até inventavam brincadeiras divertidas e eu participava. Uma vez brincamos de fazer bolhas de sabão. Foi bastante divertido. Gostava de soprá-las pra cima depois de feitas e observar enquanto caiam no chão. A maioria das outras crianças gostavam mesmo era de soprar e estourar as bolhas.
Outra brincadeira que eu gostava muito era de esconde-esconde. Eu costumava subir em uma árvore e ficar lá, até que me encontrassem. Funcionou até que se acostumassem a me achar nas árvores e eu desisti de brincar. Era muito entediante me esconder em outros lugares.
Quando todos nós entramos na escola eu achei o fim. Ficava muito tempo dentro da sala de aula e quando saíamos, era pra fazer educação física. Não dava tempo de olhar o céu de dia, então comecei a observar o céu de noite. Teve um dia que até vi uma estrela cadente! Lembrei das histórias que me contavam e fiz um pedido. Mas demorou muito tempo até que ele se realizasse.
Cresci e descobri algumas profissões que estudavam o céu. Descobri a astronomia e a astrologia, os cientistas e os astronautas. Tantas opções! Mas conforme fui tentando me envolver com cada uma delas, fui percebendo que cada uma tinha seus pontos de sacrifício. E eu não estava disposta a sacrificar nada. Foi quando me deram a melhor sugestão. E comecei a pintar.
Comecei com um caderno de desenho. Daqueles pequenos, na época da escola mesmo. Sempre que me pediam pra desenhar algo, eram nuvens em um céu azul. Assim mesmo. Às vezes desenhava um sol. Uma vez até tentei desenhar o céu de tarde, mas disseram que tinha ficado feio e resolvi não tentar de novo. Por um bom tempo, não tive coragem de pintar céus no entardecer. Uma pena, pois conforme crescia, se tornava meu favorito. Era divertido pintar um céu noturno com estrelas. Também era fácil desenhar um céu diurno com nuvens. Mas os céus que realmente me encantavam eram aqueles cheios de cores e texturas. Um céu nublado cheio de nuvens de chuva, por exemplo. Ou o céu no amanhecer. Poucas pessoas sabem como parece o amanhecer. Eu mesma só fui conhecê-lo quando comecei a trabalhar.
A transição de cadernos de desenho para telas se deu mais ou menos nessa época. Trabalhando era mais fácil ter dinheiro para comprar materiais nobres. No entanto, faltava tempo. Nunca pintei pensando em expor, mas um amigo viu e resolveu tentar. Foi um sucesso pelas primeiras semanas mas conforme o tempo passou, começaram a surgir reclamações. Só tinham pinturas de céu. As pessoas esperavam mais.
Só que eu não, então fiquei um tempo sem expor minhas pinturas. Passei a ser uma artista sazonal e funcionou bem pra mim. Não era tão corrido e ainda tinha um público fiel que comprava minha arte. Como não era minha principal fonte de renda, não passava necessidade. Pensava em como devia ser para uma pessoa que realmente se dedicasse de corpo e alma àquela profissão. Mas nada disso fez com que minha paixão mudasse. Minha primeira viagem de avião foi uma das melhores experiências que vivi. Tive outras, mas não me causavam a mesma empolgação.
Troquei de empregos algumas vezes. De namorados, mais uma porção delas. Me chamavam de avoada, de cabeça nas nuvens. Não me ofendia. Era bem o que eu era mesmo. Uma garota com a mente e o coração nas alturas.
Quando eu era pequena gostava d ficar do lado de fora de casa, deitada na grama, olhando pro céu. Minha mãe até me mandava ir brincar com as outras crianças, mas elas eram muito agitadas. Tinham vezes que eles até inventavam brincadeiras divertidas e eu participava. Uma vez brincamos de fazer bolhas de sabão. Foi bastante divertido. Gostava de soprá-las pra cima depois de feitas e observar enquanto caiam no chão. A maioria das outras crianças gostavam mesmo era de soprar e estourar as bolhas.
Outra brincadeira que eu gostava muito era de esconde-esconde. Eu costumava subir em uma árvore e ficar lá, até que me encontrassem. Funcionou até que se acostumassem a me achar nas árvores e eu desisti de brincar. Era muito entediante me esconder em outros lugares.
Quando todos nós entramos na escola eu achei o fim. Ficava muito tempo dentro da sala de aula e quando saíamos, era pra fazer educação física. Não dava tempo de olhar o céu de dia, então comecei a observar o céu de noite. Teve um dia que até vi uma estrela cadente! Lembrei das histórias que me contavam e fiz um pedido. Mas demorou muito tempo até que ele se realizasse.
Cresci e descobri algumas profissões que estudavam o céu. Descobri a astronomia e a astrologia, os cientistas e os astronautas. Tantas opções! Mas conforme fui tentando me envolver com cada uma delas, fui percebendo que cada uma tinha seus pontos de sacrifício. E eu não estava disposta a sacrificar nada. Foi quando me deram a melhor sugestão. E comecei a pintar.
Comecei com um caderno de desenho. Daqueles pequenos, na época da escola mesmo. Sempre que me pediam pra desenhar algo, eram nuvens em um céu azul. Assim mesmo. Às vezes desenhava um sol. Uma vez até tentei desenhar o céu de tarde, mas disseram que tinha ficado feio e resolvi não tentar de novo. Por um bom tempo, não tive coragem de pintar céus no entardecer. Uma pena, pois conforme crescia, se tornava meu favorito. Era divertido pintar um céu noturno com estrelas. Também era fácil desenhar um céu diurno com nuvens. Mas os céus que realmente me encantavam eram aqueles cheios de cores e texturas. Um céu nublado cheio de nuvens de chuva, por exemplo. Ou o céu no amanhecer. Poucas pessoas sabem como parece o amanhecer. Eu mesma só fui conhecê-lo quando comecei a trabalhar.
A transição de cadernos de desenho para telas se deu mais ou menos nessa época. Trabalhando era mais fácil ter dinheiro para comprar materiais nobres. No entanto, faltava tempo. Nunca pintei pensando em expor, mas um amigo viu e resolveu tentar. Foi um sucesso pelas primeiras semanas mas conforme o tempo passou, começaram a surgir reclamações. Só tinham pinturas de céu. As pessoas esperavam mais.
Só que eu não, então fiquei um tempo sem expor minhas pinturas. Passei a ser uma artista sazonal e funcionou bem pra mim. Não era tão corrido e ainda tinha um público fiel que comprava minha arte. Como não era minha principal fonte de renda, não passava necessidade. Pensava em como devia ser para uma pessoa que realmente se dedicasse de corpo e alma àquela profissão. Mas nada disso fez com que minha paixão mudasse. Minha primeira viagem de avião foi uma das melhores experiências que vivi. Tive outras, mas não me causavam a mesma empolgação.
Troquei de empregos algumas vezes. De namorados, mais uma porção delas. Me chamavam de avoada, de cabeça nas nuvens. Não me ofendia. Era bem o que eu era mesmo. Uma garota com a mente e o coração nas alturas.
sábado, 28 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - O Sonho
Historinha pequenininha e bonitinha para aquecer os corações nessa noite fria.
Sentada na Lua, olhava para o céu. Estático, sem brilho, gelado. Sentia como se me tirasse o ar, como se me prensasse contra o firmamento. Ainda assim, era a visão que eu tinha. Uma estrela passou voando e caiu bem do meu lado. Levei um susto.
-Quer vir comigo?
Eu estava sozinha, que mal faria? Montei nela e saímos voando por aí. Mas tudo era muito. Ou muito quente ou muito frio, ou muito grande ou muito pequeno, ou muito gasoso ou muito sólido. Até que a estrelinha caiu em um lugar diferente. Tudo era tudo, e as estrelas brilhavam. O chão não era frio, mas era úmido. Fechei os olhos.
-Não podemos ficar muito.
-Eu sei.
Realmente sabia. Mas era aconchegante e confortável. Quente e carinhoso. Me deixei ficar. A estrelinha foi perdendo forças e se despediu. Se ficasse mais, sumiria. Não me importava de sumir ali. O cheiro invadia minhas narinas e ia bem fundo nos meus pulmões, me fazendo sentir sensações que não conhecia.
Foi ficando quente. Muito quente. Dava pra ver o círculo de fogo queimando. Machucava só de olhar. Não queria, mas me senti atraída por aquela dor. Era como se me sugasse pra dentro dela. Peguei carona com o vento, que me içou nas alturas, alto o suficiente para flutuar para fora. Tudo tinha voltado ao que costumava ser, menos aquele círculo de luz e de fogo. Tinha que chegar mais perto. A estrelinha reapareceu, com energias renovadas.
-Posso te levar até lá, mas não recomendo, será seu fim.
-Não me importo.
Era melhor me queimar naquele fogo que viver o resto de meus dias sem saber como era aquela sensação. Ela me levou o mais perto que podia.
-Não posso passar daqui, até eu tenho minhas limitações.
-Aqui está bom.
Peguei impulso em minha amiga, que chispou no instante seguinte. Tive a impressão de que ela chorava por mim e quis dizer que não precisava se preocupar, pois eu estaria bem. Teria voltado para casa. Toda sombra precisa de uma luz para existir e eu era nada mais que uma sombra, esperando para me juntar à minha criadora.
Sentada na Lua, olhava para o céu. Estático, sem brilho, gelado. Sentia como se me tirasse o ar, como se me prensasse contra o firmamento. Ainda assim, era a visão que eu tinha. Uma estrela passou voando e caiu bem do meu lado. Levei um susto.
-Quer vir comigo?
Eu estava sozinha, que mal faria? Montei nela e saímos voando por aí. Mas tudo era muito. Ou muito quente ou muito frio, ou muito grande ou muito pequeno, ou muito gasoso ou muito sólido. Até que a estrelinha caiu em um lugar diferente. Tudo era tudo, e as estrelas brilhavam. O chão não era frio, mas era úmido. Fechei os olhos.
-Não podemos ficar muito.
-Eu sei.
Realmente sabia. Mas era aconchegante e confortável. Quente e carinhoso. Me deixei ficar. A estrelinha foi perdendo forças e se despediu. Se ficasse mais, sumiria. Não me importava de sumir ali. O cheiro invadia minhas narinas e ia bem fundo nos meus pulmões, me fazendo sentir sensações que não conhecia.
Foi ficando quente. Muito quente. Dava pra ver o círculo de fogo queimando. Machucava só de olhar. Não queria, mas me senti atraída por aquela dor. Era como se me sugasse pra dentro dela. Peguei carona com o vento, que me içou nas alturas, alto o suficiente para flutuar para fora. Tudo tinha voltado ao que costumava ser, menos aquele círculo de luz e de fogo. Tinha que chegar mais perto. A estrelinha reapareceu, com energias renovadas.
-Posso te levar até lá, mas não recomendo, será seu fim.
-Não me importo.
Era melhor me queimar naquele fogo que viver o resto de meus dias sem saber como era aquela sensação. Ela me levou o mais perto que podia.
-Não posso passar daqui, até eu tenho minhas limitações.
-Aqui está bom.
Peguei impulso em minha amiga, que chispou no instante seguinte. Tive a impressão de que ela chorava por mim e quis dizer que não precisava se preocupar, pois eu estaria bem. Teria voltado para casa. Toda sombra precisa de uma luz para existir e eu era nada mais que uma sombra, esperando para me juntar à minha criadora.
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Um Lago na Floresta
História de hoje era pra ser a história de ontem. Percebi, enquanto a escrevia, que tenho uma extrema dificuldade quando me inspiro demais a terminar a história pelo rumo que queria. Essa é inspirada em quadrinhos que li do Tio Patinhas uma vez, a coisa mais linda de todas, que nunca esqueci. Espero que gostem!
Somos de uma tribo nômade do deserto de Cassim. Não é que não existam outros lugares para morarmos, mas esse deserto já é nosso lar, e nos sentimos confortáveis nele. Já estamos aqui há várias gerações e acabamos aprendendo muitas lendas e histórias desse lugar. Afinal, não somos os únicos habitantes desse deserto. E uma delas é a que vou lhes contar agora, que me envolve diretamente.
Quando era criança minha mãe me contava sobre a lenda de um lago que aparecia no meio do deserto a cada 20 anos. Supostamente, uma bela garota vivia no fundo desse lago, mas todos que tentavam se aproximar dela morriam afogados. Era nossa própria sereia, presa em algo que poderia ser considerado uma poça d'água em comparação à imensidão dos outros lugares onde ouvíamos falar da ocorrência de sereias. Era como eu imaginava pelo menos.
Eu tinha uns oito anos quando aconteceu. Não conseguia dormir à noite e acabei notando quando o céu ficou claro. Não como o dia, mas muito mais claro do que qualquer outra noite que eu já havia vivido. Saí da minha tenda e, como toda criança curiosa que existe por aí, fui olhar o que estava acontecendo. Por algum motivo que não sei explicar, a lua estava brilhando muito mais do que o normal e parecia mais próxima também. Comecei a ouvir alguns barulhos ao longe e resolvi seguir até lá e ver o que estava acontecendo. Foi quando descobri que era real.
O som que eu ouvia era uma voz misturada com água borbulhante. A água realmente borbulhava enquanto saía da areia e enchia uma cavidade enorme que tinha ali perto. A voz eu tive um pouco mais de dificuldade de conseguir perceber de onde vinha. Era tão bonita e doce, me encheu imediatamente de calma. Fechei os olhos, levantei a cabeça e comecei a girar em torno dos meus pés, uma brincadeira que eu costumava fazer quando estava entediado. Rodopiava até me sentir tonto e cair na areia, e ali ficava até a sensação de cabeça girando passar. Foi exatamente o que eu fiz naquele momento. E depois que caí na areia, percebi que a voz tinha parado. Abri os olhos e vi uma figura rodopiando lentamente na minha frente.
-Você está bem?
Ela me estendeu a mão. Eu ainda estava tonto e acabei tropeçando. Acabamos caindo, dessa vez os dois, na areia. Eu ria sem parar e ela começou a rir também. E foi ali que percebi que era a mesma voz.
-Cante mais um pouco pra mim, sua voz é linda.
-Você acha?
-Acho! É mais bonita que a voz da minha mãe, e olha que não tem ninguém com a voz mais bonita do que minha mãe.
Era verdade. Minha mãe costumava cantar nos rituais e festivais que fazíamos. Mas não se comparava à voz dela. Parecendo muito feliz com o elogio, mesmo que tivesse vindo de uma criança, ela se sentou com as pernas cruzadas, estendeu os braços para a frente, fechou os olhos e começou a cantar novamente. A mesma canção que estava cantando há pouco. Apurei os ouvidos e percebi que ela tinha um tom um tanto quanto triste, mas não deixava de ser maravilhosa. Não pude deixar de perceber também que a água parecia sair com mais rapidez conforme ela cantava. Quando terminou, colocou as mãos juntas em frente ao peito e murmurou algumas coisas que não consegui entender. Depois jogou as mãos para trás do corpo e se apoiou nelas, os cabelos esvoaçando com a brisa noturna. Ela estava olhando para a lua e eu para ela.
Ficamos daquele jeito longamente até que ela rompeu o silêncio.
-Você é um garoto muito especial, mas devia ir para sua casa agora. As coisas vão ficar perigosas.
-Por quê?
Estava perguntando mais para saber o motivo de ter que ir embora. Que perigos podiam existir ali, no meio do deserto? Ela respirou profundamente e levantou de um salto.
-Está chegando.
Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, senti uma pancada na parte de trás da minha cabeça e apaguei. Só acordei no dia seguinte, deitado na frente da minha tenda. Já era dia, mas corri para o local onde estava a água. A água ainda estava lá, mas não tinha nem sinal dela. E eu nem tinha perguntado seu nome.
-Venha pescar com a gente!
Algumas pessoas estavam lá, com varas de pescar improvisadas, todos sentados ao redor do lago que tinha se formado. Sentei ao lado de minha mãe, abracei os joelhos e fiquei pensando na moça. Se ainda voltaria a vê-la. A lua não estava brilhando forte naquela noite e ela não estava em nenhum lugar que pudesse ser encontrada. Íamos partir em alguns dias, e por todos eles voltei ao lago. Em um deles tive a impressão de que tinha algo bem no meio dele, mas estava bem longe pra conseguir distinguir o que era.---
Lembro que com vinte e oito anos ainda me lembrava daquela história. Minha mãe me cobrava que eu me casasse,pois estava perto da idade, mas não queria. Não se não fosse com ela. Depois daquele dia e por muitos anos que se seguiram, ainda lembrava perfeitamente da sua voz, do seu rosto e da sua risada. Preparei um presente digno dela para pedi-la em casamento e minha mãe, curiosa que era, quando o encontrou soube na hora para que propósito tinha feito. Tinha começado a me atormentar desde então. Provavelmente esperava que fosse para alguma das garotas do nosso povoado. Nunca tinha lhe contado o que tinha acontecido naquela noite. No entanto, tinha certa influência sobre o nosso líder. Ele era meu amigo de infância, então me tinha como um conselheiro. Quando a coisa aperta, duas cabeças pensam melhor que uma. Consegui com certo esforço que nossa caravana estivesse próxima o suficiente do lugar em que estivemos quando eu tinha oito anos. Não é que eu tivesse medo que desconfiassem, mas eu tinha esperança de vê-la de novo. Se a visse dessa vez com certeza a pediria em casamento. Mas tinha um medo dentro de mim. E se ela não me reconhecesse? Afinal, eu era uma criança na época. Nem me passou pela cabeça, mas e se ela tivesse envelhecido? Acreditava do fundo do meu coração que ela continuaria linda, mas e se ela me rechaçasse por esse motivo? Insistiria até a morte!
Naquela noite a lua brilhou novamente. Corri para o local e, mesmo vendo as águas que jorravam para encher o lago, me enfiei dentro delas e fui em direção à voz. Tinha mesmo um lugar bem no meio do lago e era lá que ela estava. Então descobri meu primeiro obstáculo. Não sabia seu nome. Escalei o monte e cheguei lá me sentindo exausto. Olhei pra baixo e estranhei, o monte não parecia maior do que vários montes de areia que já tinha tido que atravessar pelo deserto com a tribo. Virei meu rosto e quase caí monte abaixo, pois dei de cara com o rosto dela praticamente colado no meu.
-Você voltou.
Sua voz parecia ter uma alegria contida e um tom muito reconhecível de preocupação. Olhou para trás e depois de volta pra mim.
-Não devia estar aqui.
Rapidamente peguei o presente que tinha preparado, um enfeite de cabelo feito com penas de aves raras e pérolas que cultivadas debaixo do sol. Me ajoelhei e mostrei o presente.
-Quero que case comigo - disse rapidamente, sem pensar - e também quero saber seu nome!
Ela pareceu em choque por uma fração de segundo após ouvir minha proposta e se pôs a rir imediatamente após eu perguntar seu nome. Era incrível, pois ela estava exatamente como eu me lembrava.
-Meu nome é Naara - ela começou, enquanto estendia sua mão para o nada - e aceito sua proposta, se você passar no teste.
Quando ela disse aquilo, em sua mão estendida começou a se formar algo que parecia uma lança de areia. Ela a jogou para mim e eu a apanhei. Lembrei da história que minha mãe contava e dos homens que tinham morrido. Se era o risco que tinha que correr para me casar com ela, a enfrentaria de bom grado. Esperei que ela terminasse de conjurar sua própria lança e me coloquei em posição de ataque. Ela pareceu satisfeita.
-Ótimo, parece que não vou ter que te ensinar como faz. Se prepare, ele já vai aparecer.
Ele? Eu não estava entendendo nada, mas mantive minha posição. Foi uma surpresa para mim quando, de dentro da água, um, tentáculo gigante surgiu. Foi muito rápido e eu não consegui reagir. Ela me protegeu e foi pega. Gritei seu nome. Não queria acreditar que estava sendo separado dela logo após tê-la encontrado depois de tanto tempo. No entanto, a separação foi curta, pois logo em seguida um tentáculo que bem poderia ser o mesmo apareceu e me puxou para a água também.
Achei que sua intenção era me afogar então prendi minha respiração. No entanto, quando não aguentava mais, acabei soltando o ar, que saiu com a mesma facilidade que teria saído se eu estivesse respirando ar. Tentei inspirar e entrei em pânico quando senti como se uma gosma estivesse preenchendo meus pulmões. Mas era respirável. Tentei me acalmar um pouco e entender a situação. Percebi que na verdade, o tentáculo que me prendeu não era o mesmo que pegou Naara, mas pertencia à mesma criatura. Uma criatura enorme, diga-se de passagem. Pensei em me desvencilhar do tentáculo mas, se o fizesse, perderia a chance de salvá-la. Tinha perdido minha lança e a única coisa pontuda que tinha em minha posse era o prendedor que tinha preparado para ela. Não vi muitas outras opções. Nadei com todas as forças que tinha para perto do monstro e finquei a presilha várias vezes, em vários pontos. Não estava vendo naquele momento, mas do outro lado do monstro, ela estava usando sua lança para fazer o mesmo. Não sei quanto tempo nossa luta durou, mas sei que foi longa e cansativa. O monstro foi derrotado e começou a afundar. Naara me avistou, nadou até mim, me pegou pela mão e nadou logo atrás do corpo do monstro. Não me atrevi a perguntar o porque de estarmos nadando para o fundo do lago ao invés da superfície. Até que chegamos do outro lado.
A paisagem era muito, muito diferente do deserto. Tinha vegetação abundante por todos os lados, de cores bem diferentes das que eu costumava ver em minha terra.
-Não podemos demorar.
Ela me puxou com toda a força até uma das árvores mais próximas, se agarrou em um cipó e puxou. Ele, em reação, nos içou para cima. Quase me senti sendo pescado. Instantes depois pude perceber várias criaturas se aproximando da carcaça do monstro e a devorando, até que não sobrasse mais nada. Foi tão rápido que imaginei que, se tivessem a capacidade de nadar, teriam derrotado a criatura muito mais rápido que eu e Naara em nossos esforços.
-São carniceiros - ela começou a explicar em voz baixa - mas temos que tomar cuidado, pois não conseguem se controlar muito bem quando sentem o cheiro de morte. Muitas pessoas já perderam a vida por não respeitarem essa lei simples.
Então olhou pra mim e sorriu. Apontou para o prendedor em minha mão e, quando olhei para ele, estava em frangalhos. Ela o tomou de minha mão antes que eu pudesse reagir.
-Vou ficar com ele. Mas seria bom você voltar pro lado de lá. O tempo passa de forma diferente do lado de cá e do lado de lá. Não vai querer perder a sua caravana.
Senti uma enorme tristeza por pensar que teria que me separar dela novamente. Como se sentisse essa dor, ela tomou minha mão e me acompanhou por todo o caminho de volta. Lá, a encarei longamente enquanto segurava suas mãos entre as minhas.
-Se casaria mesmo comigo?
-Você se provou bastante útil contra aquele lá. Mas somos de mundos diferentes.
Eu entendia aquilo e baixei a cabeça, pensativo. Devia haver alguma forma de mantê-la aqui, do meu lado.
-Nos veremos de novo?
-Quem sabe? Se for nosso destino.
Me roubou um beijo e pulou de volta para a água em um instante. Não tive coragem de segui-la, mas esperei até de manhã para ver se reapareceria. Não aconteceu. Voltei para minha aldeia na certeza de que, dali vinte anos, voltaria para revê-la. E que dessa vez, ficaríamos juntos, com certeza.
---
O tempo às vezes é cruel com as pessoas. Conforme o tempo passava percebia que perdia minha convicção de que poderíamos ficar juntos. Eu já teria quarenta e oito anos e ela ainda estaria tão jovem quanto na primeira vez que a vi. As obrigações sociais fizeram com que houvesse pressão não só por parte de minha mãe mas de toda a aldeia para que eu me casasse. O fiz. Tive dois filhos e, quando cheguei aos quarenta e oito anos, já tinha tido dois filhos. Não voltei ao lago. Meus filhos cresceram e se tornaram adultos. Já eu, me tornava um velho. ninguém ligava muito para a falta de um velho quando ele sumia, pois muitos deles preferiam morrer sozinhos no deserto que dar trabalho para suas famílias. Pensei que aquela seria minha última chance de vê-la antes de partir do meu mundo. Então parti em uma jornada até o monte em que ela aparecia quando cantava para as águas transbordarem. Cheguei cedo, mas foi totalmente recompensador. Ela apareceu na minha frente e, quando meu viu, abriu aquele sorriso que eu tanto amava.
-Você voltou!
Estendi meus braços e ela se deixou cair neles, me abraçando.
-Como sabe que sou eu? Envelheci tanto...
-Eu sempre sei.
Ficamos quietos por um tempo, só apreciando o momento. Foi quando lembrei de um fato importante.
-Se um monstro aparecer dessa vez, não acho que tenho forças pra lutar.
Ela sorriu e tomou minha mão. Mergulhamos e senti novamente aquela sensação peculiar da gosma entrando em meus pulmões. Parecia mais pesado e denso do que me lembrava. Do lado de lá, ela colocou minha mão em seu rosto e fechou os olhos, com uma expressão que parecia muito feliz.
-Agora podemos ficar juntos. Derrotei o último na última vez que subi. Fiquei um pouco triste de não ter te visto, então voltei hoje de novo, para ver se te encontrava. Não sabia o que ia fazer se não encontrasse. Durante todo a minha vida só aprendi duas coisas. Uma, a lutar contra os monstros. Duas, te amar. Não quero que vá embora dessa vez. Fique comigo.
-Mas eu estou velho.
-O tempo passa diferente aqui, lembra? Podemos viver muito tempo juntos ainda. Você quer ficar comigo?
Segurei sua mão e a trouxe para meus lábios.
-Não tem nada que eu tenha querido na vida mais que isso.
Somos de uma tribo nômade do deserto de Cassim. Não é que não existam outros lugares para morarmos, mas esse deserto já é nosso lar, e nos sentimos confortáveis nele. Já estamos aqui há várias gerações e acabamos aprendendo muitas lendas e histórias desse lugar. Afinal, não somos os únicos habitantes desse deserto. E uma delas é a que vou lhes contar agora, que me envolve diretamente.
Quando era criança minha mãe me contava sobre a lenda de um lago que aparecia no meio do deserto a cada 20 anos. Supostamente, uma bela garota vivia no fundo desse lago, mas todos que tentavam se aproximar dela morriam afogados. Era nossa própria sereia, presa em algo que poderia ser considerado uma poça d'água em comparação à imensidão dos outros lugares onde ouvíamos falar da ocorrência de sereias. Era como eu imaginava pelo menos.
Eu tinha uns oito anos quando aconteceu. Não conseguia dormir à noite e acabei notando quando o céu ficou claro. Não como o dia, mas muito mais claro do que qualquer outra noite que eu já havia vivido. Saí da minha tenda e, como toda criança curiosa que existe por aí, fui olhar o que estava acontecendo. Por algum motivo que não sei explicar, a lua estava brilhando muito mais do que o normal e parecia mais próxima também. Comecei a ouvir alguns barulhos ao longe e resolvi seguir até lá e ver o que estava acontecendo. Foi quando descobri que era real.
O som que eu ouvia era uma voz misturada com água borbulhante. A água realmente borbulhava enquanto saía da areia e enchia uma cavidade enorme que tinha ali perto. A voz eu tive um pouco mais de dificuldade de conseguir perceber de onde vinha. Era tão bonita e doce, me encheu imediatamente de calma. Fechei os olhos, levantei a cabeça e comecei a girar em torno dos meus pés, uma brincadeira que eu costumava fazer quando estava entediado. Rodopiava até me sentir tonto e cair na areia, e ali ficava até a sensação de cabeça girando passar. Foi exatamente o que eu fiz naquele momento. E depois que caí na areia, percebi que a voz tinha parado. Abri os olhos e vi uma figura rodopiando lentamente na minha frente.
-Você está bem?
Ela me estendeu a mão. Eu ainda estava tonto e acabei tropeçando. Acabamos caindo, dessa vez os dois, na areia. Eu ria sem parar e ela começou a rir também. E foi ali que percebi que era a mesma voz.
-Cante mais um pouco pra mim, sua voz é linda.
-Você acha?
-Acho! É mais bonita que a voz da minha mãe, e olha que não tem ninguém com a voz mais bonita do que minha mãe.
Era verdade. Minha mãe costumava cantar nos rituais e festivais que fazíamos. Mas não se comparava à voz dela. Parecendo muito feliz com o elogio, mesmo que tivesse vindo de uma criança, ela se sentou com as pernas cruzadas, estendeu os braços para a frente, fechou os olhos e começou a cantar novamente. A mesma canção que estava cantando há pouco. Apurei os ouvidos e percebi que ela tinha um tom um tanto quanto triste, mas não deixava de ser maravilhosa. Não pude deixar de perceber também que a água parecia sair com mais rapidez conforme ela cantava. Quando terminou, colocou as mãos juntas em frente ao peito e murmurou algumas coisas que não consegui entender. Depois jogou as mãos para trás do corpo e se apoiou nelas, os cabelos esvoaçando com a brisa noturna. Ela estava olhando para a lua e eu para ela.
Ficamos daquele jeito longamente até que ela rompeu o silêncio.
-Você é um garoto muito especial, mas devia ir para sua casa agora. As coisas vão ficar perigosas.
-Por quê?
Estava perguntando mais para saber o motivo de ter que ir embora. Que perigos podiam existir ali, no meio do deserto? Ela respirou profundamente e levantou de um salto.
-Está chegando.
Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, senti uma pancada na parte de trás da minha cabeça e apaguei. Só acordei no dia seguinte, deitado na frente da minha tenda. Já era dia, mas corri para o local onde estava a água. A água ainda estava lá, mas não tinha nem sinal dela. E eu nem tinha perguntado seu nome.
-Venha pescar com a gente!
Algumas pessoas estavam lá, com varas de pescar improvisadas, todos sentados ao redor do lago que tinha se formado. Sentei ao lado de minha mãe, abracei os joelhos e fiquei pensando na moça. Se ainda voltaria a vê-la. A lua não estava brilhando forte naquela noite e ela não estava em nenhum lugar que pudesse ser encontrada. Íamos partir em alguns dias, e por todos eles voltei ao lago. Em um deles tive a impressão de que tinha algo bem no meio dele, mas estava bem longe pra conseguir distinguir o que era.---
Lembro que com vinte e oito anos ainda me lembrava daquela história. Minha mãe me cobrava que eu me casasse,pois estava perto da idade, mas não queria. Não se não fosse com ela. Depois daquele dia e por muitos anos que se seguiram, ainda lembrava perfeitamente da sua voz, do seu rosto e da sua risada. Preparei um presente digno dela para pedi-la em casamento e minha mãe, curiosa que era, quando o encontrou soube na hora para que propósito tinha feito. Tinha começado a me atormentar desde então. Provavelmente esperava que fosse para alguma das garotas do nosso povoado. Nunca tinha lhe contado o que tinha acontecido naquela noite. No entanto, tinha certa influência sobre o nosso líder. Ele era meu amigo de infância, então me tinha como um conselheiro. Quando a coisa aperta, duas cabeças pensam melhor que uma. Consegui com certo esforço que nossa caravana estivesse próxima o suficiente do lugar em que estivemos quando eu tinha oito anos. Não é que eu tivesse medo que desconfiassem, mas eu tinha esperança de vê-la de novo. Se a visse dessa vez com certeza a pediria em casamento. Mas tinha um medo dentro de mim. E se ela não me reconhecesse? Afinal, eu era uma criança na época. Nem me passou pela cabeça, mas e se ela tivesse envelhecido? Acreditava do fundo do meu coração que ela continuaria linda, mas e se ela me rechaçasse por esse motivo? Insistiria até a morte!
Naquela noite a lua brilhou novamente. Corri para o local e, mesmo vendo as águas que jorravam para encher o lago, me enfiei dentro delas e fui em direção à voz. Tinha mesmo um lugar bem no meio do lago e era lá que ela estava. Então descobri meu primeiro obstáculo. Não sabia seu nome. Escalei o monte e cheguei lá me sentindo exausto. Olhei pra baixo e estranhei, o monte não parecia maior do que vários montes de areia que já tinha tido que atravessar pelo deserto com a tribo. Virei meu rosto e quase caí monte abaixo, pois dei de cara com o rosto dela praticamente colado no meu.
-Você voltou.
Sua voz parecia ter uma alegria contida e um tom muito reconhecível de preocupação. Olhou para trás e depois de volta pra mim.
-Não devia estar aqui.
Rapidamente peguei o presente que tinha preparado, um enfeite de cabelo feito com penas de aves raras e pérolas que cultivadas debaixo do sol. Me ajoelhei e mostrei o presente.
-Quero que case comigo - disse rapidamente, sem pensar - e também quero saber seu nome!
Ela pareceu em choque por uma fração de segundo após ouvir minha proposta e se pôs a rir imediatamente após eu perguntar seu nome. Era incrível, pois ela estava exatamente como eu me lembrava.
-Meu nome é Naara - ela começou, enquanto estendia sua mão para o nada - e aceito sua proposta, se você passar no teste.
Quando ela disse aquilo, em sua mão estendida começou a se formar algo que parecia uma lança de areia. Ela a jogou para mim e eu a apanhei. Lembrei da história que minha mãe contava e dos homens que tinham morrido. Se era o risco que tinha que correr para me casar com ela, a enfrentaria de bom grado. Esperei que ela terminasse de conjurar sua própria lança e me coloquei em posição de ataque. Ela pareceu satisfeita.
-Ótimo, parece que não vou ter que te ensinar como faz. Se prepare, ele já vai aparecer.
Ele? Eu não estava entendendo nada, mas mantive minha posição. Foi uma surpresa para mim quando, de dentro da água, um, tentáculo gigante surgiu. Foi muito rápido e eu não consegui reagir. Ela me protegeu e foi pega. Gritei seu nome. Não queria acreditar que estava sendo separado dela logo após tê-la encontrado depois de tanto tempo. No entanto, a separação foi curta, pois logo em seguida um tentáculo que bem poderia ser o mesmo apareceu e me puxou para a água também.
Achei que sua intenção era me afogar então prendi minha respiração. No entanto, quando não aguentava mais, acabei soltando o ar, que saiu com a mesma facilidade que teria saído se eu estivesse respirando ar. Tentei inspirar e entrei em pânico quando senti como se uma gosma estivesse preenchendo meus pulmões. Mas era respirável. Tentei me acalmar um pouco e entender a situação. Percebi que na verdade, o tentáculo que me prendeu não era o mesmo que pegou Naara, mas pertencia à mesma criatura. Uma criatura enorme, diga-se de passagem. Pensei em me desvencilhar do tentáculo mas, se o fizesse, perderia a chance de salvá-la. Tinha perdido minha lança e a única coisa pontuda que tinha em minha posse era o prendedor que tinha preparado para ela. Não vi muitas outras opções. Nadei com todas as forças que tinha para perto do monstro e finquei a presilha várias vezes, em vários pontos. Não estava vendo naquele momento, mas do outro lado do monstro, ela estava usando sua lança para fazer o mesmo. Não sei quanto tempo nossa luta durou, mas sei que foi longa e cansativa. O monstro foi derrotado e começou a afundar. Naara me avistou, nadou até mim, me pegou pela mão e nadou logo atrás do corpo do monstro. Não me atrevi a perguntar o porque de estarmos nadando para o fundo do lago ao invés da superfície. Até que chegamos do outro lado.
A paisagem era muito, muito diferente do deserto. Tinha vegetação abundante por todos os lados, de cores bem diferentes das que eu costumava ver em minha terra.
-Não podemos demorar.
Ela me puxou com toda a força até uma das árvores mais próximas, se agarrou em um cipó e puxou. Ele, em reação, nos içou para cima. Quase me senti sendo pescado. Instantes depois pude perceber várias criaturas se aproximando da carcaça do monstro e a devorando, até que não sobrasse mais nada. Foi tão rápido que imaginei que, se tivessem a capacidade de nadar, teriam derrotado a criatura muito mais rápido que eu e Naara em nossos esforços.
-São carniceiros - ela começou a explicar em voz baixa - mas temos que tomar cuidado, pois não conseguem se controlar muito bem quando sentem o cheiro de morte. Muitas pessoas já perderam a vida por não respeitarem essa lei simples.
Então olhou pra mim e sorriu. Apontou para o prendedor em minha mão e, quando olhei para ele, estava em frangalhos. Ela o tomou de minha mão antes que eu pudesse reagir.
-Vou ficar com ele. Mas seria bom você voltar pro lado de lá. O tempo passa de forma diferente do lado de cá e do lado de lá. Não vai querer perder a sua caravana.
Senti uma enorme tristeza por pensar que teria que me separar dela novamente. Como se sentisse essa dor, ela tomou minha mão e me acompanhou por todo o caminho de volta. Lá, a encarei longamente enquanto segurava suas mãos entre as minhas.
-Se casaria mesmo comigo?
-Você se provou bastante útil contra aquele lá. Mas somos de mundos diferentes.
Eu entendia aquilo e baixei a cabeça, pensativo. Devia haver alguma forma de mantê-la aqui, do meu lado.
-Nos veremos de novo?
-Quem sabe? Se for nosso destino.
Me roubou um beijo e pulou de volta para a água em um instante. Não tive coragem de segui-la, mas esperei até de manhã para ver se reapareceria. Não aconteceu. Voltei para minha aldeia na certeza de que, dali vinte anos, voltaria para revê-la. E que dessa vez, ficaríamos juntos, com certeza.
---
O tempo às vezes é cruel com as pessoas. Conforme o tempo passava percebia que perdia minha convicção de que poderíamos ficar juntos. Eu já teria quarenta e oito anos e ela ainda estaria tão jovem quanto na primeira vez que a vi. As obrigações sociais fizeram com que houvesse pressão não só por parte de minha mãe mas de toda a aldeia para que eu me casasse. O fiz. Tive dois filhos e, quando cheguei aos quarenta e oito anos, já tinha tido dois filhos. Não voltei ao lago. Meus filhos cresceram e se tornaram adultos. Já eu, me tornava um velho. ninguém ligava muito para a falta de um velho quando ele sumia, pois muitos deles preferiam morrer sozinhos no deserto que dar trabalho para suas famílias. Pensei que aquela seria minha última chance de vê-la antes de partir do meu mundo. Então parti em uma jornada até o monte em que ela aparecia quando cantava para as águas transbordarem. Cheguei cedo, mas foi totalmente recompensador. Ela apareceu na minha frente e, quando meu viu, abriu aquele sorriso que eu tanto amava.
-Você voltou!
Estendi meus braços e ela se deixou cair neles, me abraçando.
-Como sabe que sou eu? Envelheci tanto...
-Eu sempre sei.
Ficamos quietos por um tempo, só apreciando o momento. Foi quando lembrei de um fato importante.
-Se um monstro aparecer dessa vez, não acho que tenho forças pra lutar.
Ela sorriu e tomou minha mão. Mergulhamos e senti novamente aquela sensação peculiar da gosma entrando em meus pulmões. Parecia mais pesado e denso do que me lembrava. Do lado de lá, ela colocou minha mão em seu rosto e fechou os olhos, com uma expressão que parecia muito feliz.
-Agora podemos ficar juntos. Derrotei o último na última vez que subi. Fiquei um pouco triste de não ter te visto, então voltei hoje de novo, para ver se te encontrava. Não sabia o que ia fazer se não encontrasse. Durante todo a minha vida só aprendi duas coisas. Uma, a lutar contra os monstros. Duas, te amar. Não quero que vá embora dessa vez. Fique comigo.
-Mas eu estou velho.
-O tempo passa diferente aqui, lembra? Podemos viver muito tempo juntos ainda. Você quer ficar comigo?
Segurei sua mão e a trouxe para meus lábios.
-Não tem nada que eu tenha querido na vida mais que isso.
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Onde estão suas mãos?
Ontem o dia foi tão corrido que não consegui escrever. Mas vou postar a história de ontem hoje, pra compensar.
Na primeira vez que nos vimos, você foi tímido e mal falou. Ainda assim. fiz questão de te provocar, colocando a mão na sua perna. Estava bom e eu estava conseguindo quase muito bem dividir a atenção entre assistir o filme e esfregar a mão na sua perna. Até que você recuou, e eu instintivamente recuei minha mão também.
Na segunda vez que nos vimos, você me abraçou por trás, e foi uma sensação maravilhosa. Não sou do tipo que gosta muito de contato íntimo, mas aquele abraço foi maravilhoso. E sinto que você nunca mais me deu um igual. Fomos para outro lugar e lá você segurou meu rosto e me beijou. Naquele dia eu não sabia ainda, mas acho que foi uma das poucas vezes que você tomou a iniciativa de me beijar. E como nos beijamos! Lembra do guarda? Eu lembro.
Depois disso, ficamos várias vezes. Íamos no cinema. Fomos em um rodízio de comida japonesa pra que eu conhecesse sua mãe. Viajamos pra praia duas vezes. Nossos contatos foram ficando mais íntimos. Mesmo assim, tenho a impressão que você passou a se afastar de mim. Você nunca mais disse que gostava de mim, nem lembro se algum dia cheguei a te ouvir dizer que me ama. Você repeliu minhas tentativas de te beijar mais que uma vez. E você pediu pra terminar mais que uma vez.
Se era pra ser assim, por que então você segurou minha mão enquanto íamos para a entrada do condomínio? Por que segurou minha mão no táxi e, quando pensei que não queria mais, você a pegou de novo e continuou segurando? Por que me apresentou pra sua família se não pretendia continuar junto comigo? Por que fez cara feia quando eu fiz sinal de não com a cabeça quando você perguntou se eu queria tirar uma foto com os noivos? Por que colocou a mão na minha perna? Você me encheu de dúvidas e deixou em mim uma semente de esperança com sua indecisão. Você não sabe, nem eu.
O que eu sei é que você me mandou seguir minha vida. Sua inconstância me faz sofrer, a facilidade com que você me descarta quando tem algum problema também não facilita as coisas. Moramos longe. Temos uma diferença de idade enorme. Ainda assim, você me fez acreditar que era pra sempre. Mas como diz a música, o pra sempre sempre acaba. Um a um você matou meus sonhos, minhas expectativas, meus desejos. Você me deu sonhos com uma mão e os arrancou com a outra. Você me levou ao céu e ao inferno. Você me fez a pessoa mais feliz e a mais infeliz no espaço mais curto de tempo possível. Mesmo assim, nesse exato momento, quando paro pra pensar, só consigo lembrar de coisas boas ao seu respeito.
Onde estão suas mãos agora? Será que já encontrou outra mulher? Será que vai procurar outra mulher? Quais são seus planos pra agora? E pro futuro? Você acha mesmo que podemos continuar sendo amigos depois de tudo que aconteceu? Você e eu nunca fomos só amigos, pois desde o início, existia um interesse da sua parte. Eu mudei minha vida toda por você. O que você mudou por mim? Sei que sou parcialmente responsável por várias coisas ruins que você vê em você mesmo e me desculpo por isso. Nunca foi minha intenção. Queria ser feliz ao seu lado. Eu realmente passei a desejar isso. Agora não sei mais o que fazer da minha vida. Como te disse em algum momento de toda essa turbulência, vou catar os cacos e continuar. Mas aquela sementinha de esperança que existia em mim morreu. Então espero que, se algum dia você pretender ter algo comigo de novo, você tenha bastante certeza de que é isso que quer, e que quer pelo resto da vida. E espero que tenha paciência comigo, pois provavelmente não vai ser do mesmo jeito. Mas minhas mãos ainda são suas.
Na primeira vez que nos vimos, você foi tímido e mal falou. Ainda assim. fiz questão de te provocar, colocando a mão na sua perna. Estava bom e eu estava conseguindo quase muito bem dividir a atenção entre assistir o filme e esfregar a mão na sua perna. Até que você recuou, e eu instintivamente recuei minha mão também.
Na segunda vez que nos vimos, você me abraçou por trás, e foi uma sensação maravilhosa. Não sou do tipo que gosta muito de contato íntimo, mas aquele abraço foi maravilhoso. E sinto que você nunca mais me deu um igual. Fomos para outro lugar e lá você segurou meu rosto e me beijou. Naquele dia eu não sabia ainda, mas acho que foi uma das poucas vezes que você tomou a iniciativa de me beijar. E como nos beijamos! Lembra do guarda? Eu lembro.
Depois disso, ficamos várias vezes. Íamos no cinema. Fomos em um rodízio de comida japonesa pra que eu conhecesse sua mãe. Viajamos pra praia duas vezes. Nossos contatos foram ficando mais íntimos. Mesmo assim, tenho a impressão que você passou a se afastar de mim. Você nunca mais disse que gostava de mim, nem lembro se algum dia cheguei a te ouvir dizer que me ama. Você repeliu minhas tentativas de te beijar mais que uma vez. E você pediu pra terminar mais que uma vez.
Se era pra ser assim, por que então você segurou minha mão enquanto íamos para a entrada do condomínio? Por que segurou minha mão no táxi e, quando pensei que não queria mais, você a pegou de novo e continuou segurando? Por que me apresentou pra sua família se não pretendia continuar junto comigo? Por que fez cara feia quando eu fiz sinal de não com a cabeça quando você perguntou se eu queria tirar uma foto com os noivos? Por que colocou a mão na minha perna? Você me encheu de dúvidas e deixou em mim uma semente de esperança com sua indecisão. Você não sabe, nem eu.
O que eu sei é que você me mandou seguir minha vida. Sua inconstância me faz sofrer, a facilidade com que você me descarta quando tem algum problema também não facilita as coisas. Moramos longe. Temos uma diferença de idade enorme. Ainda assim, você me fez acreditar que era pra sempre. Mas como diz a música, o pra sempre sempre acaba. Um a um você matou meus sonhos, minhas expectativas, meus desejos. Você me deu sonhos com uma mão e os arrancou com a outra. Você me levou ao céu e ao inferno. Você me fez a pessoa mais feliz e a mais infeliz no espaço mais curto de tempo possível. Mesmo assim, nesse exato momento, quando paro pra pensar, só consigo lembrar de coisas boas ao seu respeito.
Onde estão suas mãos agora? Será que já encontrou outra mulher? Será que vai procurar outra mulher? Quais são seus planos pra agora? E pro futuro? Você acha mesmo que podemos continuar sendo amigos depois de tudo que aconteceu? Você e eu nunca fomos só amigos, pois desde o início, existia um interesse da sua parte. Eu mudei minha vida toda por você. O que você mudou por mim? Sei que sou parcialmente responsável por várias coisas ruins que você vê em você mesmo e me desculpo por isso. Nunca foi minha intenção. Queria ser feliz ao seu lado. Eu realmente passei a desejar isso. Agora não sei mais o que fazer da minha vida. Como te disse em algum momento de toda essa turbulência, vou catar os cacos e continuar. Mas aquela sementinha de esperança que existia em mim morreu. Então espero que, se algum dia você pretender ter algo comigo de novo, você tenha bastante certeza de que é isso que quer, e que quer pelo resto da vida. E espero que tenha paciência comigo, pois provavelmente não vai ser do mesmo jeito. Mas minhas mãos ainda são suas.
terça-feira, 24 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Ovos e Rosas
Hoje vai ser uma Fanfic. Primeiro por eu nunca ter tido a oportunidade de vivenciar café da manhã na cama e segundo porque eu realmente não aguento mais ficar triste e chorando. De Harvest Moon, Cam e Lilian.
Acordei cedo aquela manhã. Lilian tinha me dado a notícia que estava grávida na manhã anterior e eu tinha ficado em êxtase. Foi em cima da hora, mas resolvi fazer uma surpresa pra ela. Estávamos em Konohana, Phillip tinha insistido bastante para que nos mudássemos para lá desde que nos casamos. Já tinha passado uma estação desde então.
Naquela manhã, a primeira coisa que fiz foi olhar na geladeira se tinha leite. Por sorte, tinha. Não é que não gostasse dos animais, mas me dava melhor com as plantas. Agora só faltavam mais duas coisas: os ovos e as rosas.
Consegui sair de casa sem bater a porta. Olhei pela janela mesmo assim, só pra conferir, e ela continuava dormindo. Suspirei aliviado e me dirigi ao galinheiro. Elas ainda estavam dormindo também. Com o mesmo cuidado que tive para sair da casa, me aproximei de uma das galinhas.
-Com licença.
Não sei se ela me ouviu ou o que, mas ela abriu os olhos e ficou me encarando. Eu paralisei. Queria pegar o ovo, mas estava receoso que ela tentasse me bicar. Engoli em seco e enfiei a mão por debaixo dela. Tateei um pouco até sentir o que procurava, o ovo. Estava com ele em mãos, só precisava tirar. Achei que seria uma tarefa fácil, mas assim que tirei a mão de baixo da galinha, ela me bicou. Por sorte não deixei o ovo cair, mas tive que correr. Todas as galinhas acordaram com um mero cacarejo daquela galinha e começaram a correr atrás de mim. Corri e fechei a porta atrás de mim. Em Konohana, não tinha muito espaço pra criar animais. Me surpreendi como tão poucas delas podiam ser tão assustadoras.
Respirei fundo e olhei para a plantação. Ali sim eu me sentia bem. Procurei entre as flores que já estavam plantadas se já tinha alguma rosa que pudesse ser cortada. Pela minha experiência, ainda estavam um tanto quanto jovens, mas isso podia até dar um charme para a surpresa. Escolhi um dos botões mais viçosos e levei pra dentro. Quando entrei, quase me esqueci de não bater a porta. Dei uma espiadela no quarto e percebi que Lilian ainda dormia. Isso me daria tempo suficiente para preparar as coisas.
Primeiro, preparei um recipiente para a rosa. Depois fui para a cozinha, preparar uma omelete. Peguei o leite na geladeira e esquentei um pouco, só pra ela não tomar o leite frio. A omelete queimou um pouco aqui e ali, mas no geral, parecia boa. Comestível, para dizer o mínimo. Coloquei tudo em uma bandeja e me dirigi ao nosso quarto. Quando cheguei, ela ainda estava dormindo. Coloquei a bandeja de lado e segurei seu braço, enquanto a chamei gentilmente.
-Lilian?
-Hmm...
-Hora de acordar.
Ela abriu os olhos e se espreguiçou. Quando me viu, abriu aquele sorriso tão encantador do qual eu nunca me cansava.
-Fiz o café da manhã.
-Fez?
Seu rosto se iluminou quando olhou pra bandeja. A primeira coisa que fez foi pegar a rosa. Sentiu o perfume e colocou de volta. Então pegou o copo de leite.
-Obrigada pela comida.
Sentei ao seu lado e mais fiquei observando enquanto comia do que qualquer coisa. Ela comia com gosto, mesmo depois de encontrar um pequeno pedaço de casca de ovo no meio da omelete. Depois, ficou segurando minha mão enquanto me lançava olhares de canto de olho.
-Quer ajuda com a plantação? Não vou oferecer com os animais, pois eles me odeiam.
Ela riu e aqueceu meu coração. Não podia esperar para ver que tipo de criança nasceria de nós dois. E esperava do fundo do meu coração que parecesse com ela, pois com certeza seria a criança mais adorável do mundo.
Acordei cedo aquela manhã. Lilian tinha me dado a notícia que estava grávida na manhã anterior e eu tinha ficado em êxtase. Foi em cima da hora, mas resolvi fazer uma surpresa pra ela. Estávamos em Konohana, Phillip tinha insistido bastante para que nos mudássemos para lá desde que nos casamos. Já tinha passado uma estação desde então.
Naquela manhã, a primeira coisa que fiz foi olhar na geladeira se tinha leite. Por sorte, tinha. Não é que não gostasse dos animais, mas me dava melhor com as plantas. Agora só faltavam mais duas coisas: os ovos e as rosas.
Consegui sair de casa sem bater a porta. Olhei pela janela mesmo assim, só pra conferir, e ela continuava dormindo. Suspirei aliviado e me dirigi ao galinheiro. Elas ainda estavam dormindo também. Com o mesmo cuidado que tive para sair da casa, me aproximei de uma das galinhas.
-Com licença.
Não sei se ela me ouviu ou o que, mas ela abriu os olhos e ficou me encarando. Eu paralisei. Queria pegar o ovo, mas estava receoso que ela tentasse me bicar. Engoli em seco e enfiei a mão por debaixo dela. Tateei um pouco até sentir o que procurava, o ovo. Estava com ele em mãos, só precisava tirar. Achei que seria uma tarefa fácil, mas assim que tirei a mão de baixo da galinha, ela me bicou. Por sorte não deixei o ovo cair, mas tive que correr. Todas as galinhas acordaram com um mero cacarejo daquela galinha e começaram a correr atrás de mim. Corri e fechei a porta atrás de mim. Em Konohana, não tinha muito espaço pra criar animais. Me surpreendi como tão poucas delas podiam ser tão assustadoras.
Respirei fundo e olhei para a plantação. Ali sim eu me sentia bem. Procurei entre as flores que já estavam plantadas se já tinha alguma rosa que pudesse ser cortada. Pela minha experiência, ainda estavam um tanto quanto jovens, mas isso podia até dar um charme para a surpresa. Escolhi um dos botões mais viçosos e levei pra dentro. Quando entrei, quase me esqueci de não bater a porta. Dei uma espiadela no quarto e percebi que Lilian ainda dormia. Isso me daria tempo suficiente para preparar as coisas.
Primeiro, preparei um recipiente para a rosa. Depois fui para a cozinha, preparar uma omelete. Peguei o leite na geladeira e esquentei um pouco, só pra ela não tomar o leite frio. A omelete queimou um pouco aqui e ali, mas no geral, parecia boa. Comestível, para dizer o mínimo. Coloquei tudo em uma bandeja e me dirigi ao nosso quarto. Quando cheguei, ela ainda estava dormindo. Coloquei a bandeja de lado e segurei seu braço, enquanto a chamei gentilmente.
-Lilian?
-Hmm...
-Hora de acordar.
Ela abriu os olhos e se espreguiçou. Quando me viu, abriu aquele sorriso tão encantador do qual eu nunca me cansava.
-Fiz o café da manhã.
-Fez?
Seu rosto se iluminou quando olhou pra bandeja. A primeira coisa que fez foi pegar a rosa. Sentiu o perfume e colocou de volta. Então pegou o copo de leite.
-Obrigada pela comida.
Sentei ao seu lado e mais fiquei observando enquanto comia do que qualquer coisa. Ela comia com gosto, mesmo depois de encontrar um pequeno pedaço de casca de ovo no meio da omelete. Depois, ficou segurando minha mão enquanto me lançava olhares de canto de olho.
-Quer ajuda com a plantação? Não vou oferecer com os animais, pois eles me odeiam.
Ela riu e aqueceu meu coração. Não podia esperar para ver que tipo de criança nasceria de nós dois. E esperava do fundo do meu coração que parecesse com ela, pois com certeza seria a criança mais adorável do mundo.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Julgamento
Todos fazemos isso, mesmo sem perceber. É fácil julgar os outros. Mas e quando a vítima de nossos julgamentos somos nós mesmos? Hoje vou contar uma história real envolvendo pessoas reais.
Era uma vez uma garota. Essa garota era bastante quieta, bastante responsável e tinha um sorriso lindo, dentre outras qualidades. Ela tinha uma paixão secreta que tinha acabado de uma forma trágica e, por conta disso, havia, inconscientemente, se fechado para o amor. O medo de que ela amasse novamente e que desse errado era grande e ela não queria se arriscar.
Mas essa garota tinha uma amiga que gostava de arrastá-la pra todos os lados. E ela lhe apresentou muitas pessoas novas. Algumas eram apenas pessoas que passariam por sua vida e não fariam diferença nenhuma. Outras, no entanto, se encantariam com ela e tentariam conquistar seu coração. Só não sabiam da grande barreira que existia em seus caminhos. Ela também não era uma garota fácil. No entanto, se pegou pensando em um dos pretendentes. E se desesperou pela lembrança do que tinha acontecido com o primeiro e único.
Procurou a amiga e confessou seus medos, suas lembranças e sua dor. E a amiga ofereceu ajuda para lhe dar confiança. Começaram a trocar emails. Então resolveram sair as duas junto com o pretendente escolhido. Existia um abismo entre eles durante as conversas, e a amiga fez o trabalho de mediadora. Era como se não se entendessem direito. Precisavam trabalhar naquele problema, e, se pretendiam mesmo dividir uma vida juntos, tinha que ser entre eles.
Começaram a namorar e passaram a ir pra todos os lugares juntos. Onde um ia, o outro também. Um par de vasos. Ficavam juntos ao ponto de quase não verem mais os amigos. Mas se tinham que ir pra algum lugar, iam juntos.
Noivaram. Casaram. E começaram a morar juntos. Tão concentrados em suas próprias vidas que esqueciam completamente dos outros ao redor. No entanto, os outros ao redor, por mais que sentissem falta, também não se mexiam para tentar uma reaproximação.
Nós, pessoas que vimos o relacionamento deles nascer e se desenvolver, desejamos do fundo do coração que eles fiquem juntos para sempre. Mas o final dessa história só pode ser definida por eles próprios, que vivem hoje isolados mas felizes. Não que eu, que escrevo essa história possa julgá-los, já que meus pais viveram assim por todo o tempo depois de terem filhos. E foram felizes até que a morte os separasse.
Era uma vez uma garota. Essa garota era bastante quieta, bastante responsável e tinha um sorriso lindo, dentre outras qualidades. Ela tinha uma paixão secreta que tinha acabado de uma forma trágica e, por conta disso, havia, inconscientemente, se fechado para o amor. O medo de que ela amasse novamente e que desse errado era grande e ela não queria se arriscar.
Mas essa garota tinha uma amiga que gostava de arrastá-la pra todos os lados. E ela lhe apresentou muitas pessoas novas. Algumas eram apenas pessoas que passariam por sua vida e não fariam diferença nenhuma. Outras, no entanto, se encantariam com ela e tentariam conquistar seu coração. Só não sabiam da grande barreira que existia em seus caminhos. Ela também não era uma garota fácil. No entanto, se pegou pensando em um dos pretendentes. E se desesperou pela lembrança do que tinha acontecido com o primeiro e único.
Procurou a amiga e confessou seus medos, suas lembranças e sua dor. E a amiga ofereceu ajuda para lhe dar confiança. Começaram a trocar emails. Então resolveram sair as duas junto com o pretendente escolhido. Existia um abismo entre eles durante as conversas, e a amiga fez o trabalho de mediadora. Era como se não se entendessem direito. Precisavam trabalhar naquele problema, e, se pretendiam mesmo dividir uma vida juntos, tinha que ser entre eles.
Começaram a namorar e passaram a ir pra todos os lugares juntos. Onde um ia, o outro também. Um par de vasos. Ficavam juntos ao ponto de quase não verem mais os amigos. Mas se tinham que ir pra algum lugar, iam juntos.
Noivaram. Casaram. E começaram a morar juntos. Tão concentrados em suas próprias vidas que esqueciam completamente dos outros ao redor. No entanto, os outros ao redor, por mais que sentissem falta, também não se mexiam para tentar uma reaproximação.
Nós, pessoas que vimos o relacionamento deles nascer e se desenvolver, desejamos do fundo do coração que eles fiquem juntos para sempre. Mas o final dessa história só pode ser definida por eles próprios, que vivem hoje isolados mas felizes. Não que eu, que escrevo essa história possa julgá-los, já que meus pais viveram assim por todo o tempo depois de terem filhos. E foram felizes até que a morte os separasse.
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