A história de hoje vai ser pesada, estejam avisados. Estamos em setembro, o amarelo, o contra a depressão, o contra o suicídio. Vamos nos suicidar juntos? Se quiserem, podem colocar de fundo uma trilha sonora também: Goo Goo Dolls - Black Balloon
-O que eu fiz de errado?
-Você não fez nada de errado.
-Então por quê?
-Algumas coisas chegam ao fim. "Nós" é uma delas.
Acordei ofegante, com lágrimas nos olhos. Eu era uma daquelas pessoas românticas, que namoravam pensando em casar. Meu primeiro namoro não tinha dado certo pois eu era jovem, curiosa e infiel. Confesso. Terminamos por não um, mas vários erros meus. Segundo ele, a confiança tinha se quebrado. Eu o amava, mas não conseguia mudar aquela característica. Aquela pequena característica. Era como se procurasse nas pessoas um conforto para algo, que nunca encontrava. Na verdade, nunca encontrei.
Meu segundo namorado era o tipo carinhoso e atencioso. Abria a porta do carro pra mim, me levava pra sair, me dava presentes, me trazia flores. O namorado ideal. Nunca brigamos, nem sequer uma discussão. Se algum problema surgia, sentávamos e conversávamos. E resolvíamos. Naquele dia não foi diferente. Sem gritos, sem violência. Ele não me beijou, apenas afagou meus cabelos e se foi. Por várias vezes pensei em ir atrás dele, mas não tinha coragem. Foi uma mudança sutil e quase ninguém percebeu, mas comecei a me isolar. Ainda postava fotos nas redes sociais e interagia com os amigos pela internet. Só pela internet. Se me chamavam para sair, dava uma desculpa para não ir. Ninguém percebeu que minhas fotos eram todas tiradas em casa. Ninguém percebeu a maquiagem cobrindo as olheiras. Nem o piso cheio das coisas que eu usava e tinha preguiça de guardar. Algo dentro de mim havia se partido.
Não faziam muitos dias que o tinha visto. Tinha saído pra comprar comida no mercado e o vi com outra mulher. Ela era linda e ele sorria. Me escondi por um instante, pensando que estava vendo algo proibido. Então senti raiva. Aquele homem era meu. Pensei em ir até ele, tomar seu braço e arrastá-lo pra longe comigo. Fugir, sim! Podíamos fugir pra bem longe e ficar juntos de novo. Tudo ficaria bem. Tudo estava bem. Eu nem queria terminar, pra começo de conversa. Mas ele colocou o braço por cima dos ombros dela e andaram juntos até o caixa. Continuei olhando enquanto passavam as compras, pagavam a conta, embalavam os produtos. Sorriam e conversavam. Pareciam genuinamente felizes. Me agachei, abracei os joelhos e comecei a chorar, ali mesmo. Se alguém me viu, não disse nada. Desisti das compras e voltei pra casa, arrasada. O que tinha se partido tinha, naquele momento, se estilhaçado. Realmente, não tinha mais volta. E nenhum outro caminho para onde ir.
Pesquisei algumas formas comuns pelas quais as pessoas se matam. Banheira? Muito sangue. Comprimidos? Alguém podia me achar, me levar pra um hospital e minha tentativa seria em vão. Afogamento? Eu sabia nadar, as chances de dar errado eram fortes. Enforcamento? Devia doer. Se jogar?
É, parecia que eu tinha encontrado minha forma. Só precisava de um lugar alto o bastante. Com movimento o bastante. Se a altura não me matasse primeiro, com certeza algum carro iria. Olhei no calendário. Meu aniversário se aproximava. Sabia de algumas pessoas que gostariam de comemorar comigo, então sugeri de irmos a um restaurante bem caro que ficava no terraço de um hotel famoso. Juntei minhas economias. Convidei todas as pessoas que podia e que não podia, inclusive meus ex-namorados. Comi do bom e do melhor, bebi do vinho mais caro, ri e tirei fotos. Qualquer um que perguntasse diria que eu estava ótima, que nunca imaginaria. Mas não eram eles que tinham imaginado, e sim eu.
Quando todos estavam bêbados demais ou distraídos demais para darem conta, andei até a beirada e subi. Me virei e me surpreendi por um instante. Lá estava ele, olhando para mim, com os olhos esbugalhados. Vi como se fosse em câmera lenta. Ele se levantou enquanto eu dei um passo para trás. Esticou o braço enquanto seu corpo se projetava para frente, enquanto meu corpo começou a cair. Fechei os olhos e senti as lágrimas escorrerem. A sensação era boa, não haviam arrependimentos. Era mesmo o fim.
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Nuvens Escuras Como Chumbo
A história de hoje vai ser apenas uma história. De chuva e de como me lembro das chuvas da minha infância. Espero que gostem.
Quando eu era pequena os dias eram menos quentes e mais amenos. O sol não parecia nos queimar a pele. Nossas mães nos aconselhavam a sair de casa com um agasalho todas as manhãs pois sabiam que, de manhã e de tarde, ia esfriar. Haviam mais terrenos e menos casas. E nos finais de ano, as chuvas de verão.
Me lembro como se fosse hoje de quantas e quantas vezes ficávamos sem luz e tínhamos que ligar o lampião a gás e as velas pela casa. Era uma época em que comíamos à luz de vela sem nem imaginar que aquilo era, supostamente, romântico. Dava pra ver a chuva pela porta da sala e o brilho dos relâmpagos pela janela. Não me assustava com eles, eram os trovões que me assustavam. O som alto e claro, parecia que o céu estava zangado com alguma coisa. Mas adorava o som da chuva. Me ajudava a dormir.
Me lembro que conforme crescia e ia ganhando mais imaginação, passei a dizer que a chuva era São Pedro lavando o céu, pois tinha o azar de sempre estar na rua sem um guarda-chuva quando começava a chover. Não era um problema pra mim, mas para as pessoas ao meu redor era. Eu já era uma mocinha, e as roupas de uniforme escolar insistem nas blusas brancas, então algumas coisas quer não deviam ser vistas ficavam bem expostas. Só que eu era inocente e não entendia. Até percebia as pessoas olhando, mas não fazia a menor ideia do porque olhavam. Levaram mais alguns muitos anos para eu entender.
Hoje em dia chove pouco e, quando chove, as pessoas reclamam, como se a chuva fosse uma maldição. Os dias são mais quentes e as pessoas vestem roupas cada vez mais curtas. Talvez para elas seja mais confortável mas eu sinto falta dos meus agasalhos feito à mão pela minha vózinha. Sinto falta dos dias chuvosos gastos em casa, quando eu não tinha problemas nem amores nem responsabilidades. Hoje, se quero matar a saudade das chuvas, tenho que procurar sites que tenham o som da chuva e ficar ouvindo. Não é a mesma coisa, mas já mata a saudade. A única coisa que não posso emular é o cheiro da chuva. É verdade que, quando eu era criança, nunca tinha percebido o cheiro da chuva e agora que sou adulta, consigo. Queria poder sentir naquela época, pois é um cheiro que hoje posso dizer que gosto muito.
Quando eu era pequena os dias eram menos quentes e mais amenos. O sol não parecia nos queimar a pele. Nossas mães nos aconselhavam a sair de casa com um agasalho todas as manhãs pois sabiam que, de manhã e de tarde, ia esfriar. Haviam mais terrenos e menos casas. E nos finais de ano, as chuvas de verão.
Me lembro como se fosse hoje de quantas e quantas vezes ficávamos sem luz e tínhamos que ligar o lampião a gás e as velas pela casa. Era uma época em que comíamos à luz de vela sem nem imaginar que aquilo era, supostamente, romântico. Dava pra ver a chuva pela porta da sala e o brilho dos relâmpagos pela janela. Não me assustava com eles, eram os trovões que me assustavam. O som alto e claro, parecia que o céu estava zangado com alguma coisa. Mas adorava o som da chuva. Me ajudava a dormir.
Me lembro que conforme crescia e ia ganhando mais imaginação, passei a dizer que a chuva era São Pedro lavando o céu, pois tinha o azar de sempre estar na rua sem um guarda-chuva quando começava a chover. Não era um problema pra mim, mas para as pessoas ao meu redor era. Eu já era uma mocinha, e as roupas de uniforme escolar insistem nas blusas brancas, então algumas coisas quer não deviam ser vistas ficavam bem expostas. Só que eu era inocente e não entendia. Até percebia as pessoas olhando, mas não fazia a menor ideia do porque olhavam. Levaram mais alguns muitos anos para eu entender.
Hoje em dia chove pouco e, quando chove, as pessoas reclamam, como se a chuva fosse uma maldição. Os dias são mais quentes e as pessoas vestem roupas cada vez mais curtas. Talvez para elas seja mais confortável mas eu sinto falta dos meus agasalhos feito à mão pela minha vózinha. Sinto falta dos dias chuvosos gastos em casa, quando eu não tinha problemas nem amores nem responsabilidades. Hoje, se quero matar a saudade das chuvas, tenho que procurar sites que tenham o som da chuva e ficar ouvindo. Não é a mesma coisa, mas já mata a saudade. A única coisa que não posso emular é o cheiro da chuva. É verdade que, quando eu era criança, nunca tinha percebido o cheiro da chuva e agora que sou adulta, consigo. Queria poder sentir naquela época, pois é um cheiro que hoje posso dizer que gosto muito.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - Despertar
Hoje vou escrever uma história mais leve e suave. Outra fanfic, dessa vez sobre Ragnarok Online. Espero que gostem!
Eu estava dentro de um ovo quando me dei conta de mim pela primeira vez. Ouvia vozes distantes gritando coisas que não compreendia, até que fui parar em duas mãos. Mãos gentis, que me seguraram com firmeza. Algumas palavras foram proferidas e senti algo quente dentro de mim. Quando abri meus olhos pela primeira vez, vi um rosto se iluminar na minha frente. Essa se tornaria minha maior motivação para continuar em frente, não importando as dificuldades no caminho.
-Você é uma gracinha!
A voz dela não soava como os gritos que estava acostumado a ouvir. Eu nem sabia direito o que era uma gracinha, mas ela falou com tanto amor que eu não consegui evitar de me sentir bem com aquilo. Descobri mais tarde que minha dona raramente dizia palavras de ódio, apesar de se chatear mais do que eu gostaria. Raramente ela chorava também. Quando ela estava triste eu costumava me aproximar dela de maneira sutil. Logo ela me abraçava e começava a afagar minha cabeça. Era uma das melhores sensações, mas eu não conseguia me alegrar. Pelo contrário, meu peito doía. Queria que ela voltasse a sorrir aquele mesmo sorriso.
Às vezes ela me instruiu a ajudar em combate. No início, era complicado. Eu errava bastante e ela tinha que compensar minhas falhas. No entanto, nunca me repreendeu. Pelo contrário, me dava comida, água e carinho na medida certa, nem demais, nem de menos. Não tinha do que reclamar.
Depois de um tempo, percebi que seu semblante parecia preocupado com frequência. Começamos a frequentar alguns lugares mais perigosos e ela já não me instruiu a ajudar no combate, pelo contrário, eu devia fugir de monstros caso eles resolvessem se tornar agressivos e me atacar. E naqueles lugares, todos eles eram. Ficamos por lá um bom tempo e ela parecia sempre cansada, mas determinada. Descobri depois de um tempo que ela buscava algo. Uma pedra. Não entendi no início porque sua fixação por ela, mas descobri que era por mim.
-Talvez você se sinta desconfortável - ela começou, titubeante - mas vai dar tudo certo, e você vai ficar bem, eu prometo.
Ela realizou o ritual necessário e, mais uma vez, senti meu corpo se encher de calor. Quando o processo terminou, eu vi de novo. Aquele mesmo sorriso. Corri em direção a ela e ela me recebeu de braços abertos. Estava maior, me sentia mais forte e decidi que, daquele momento em diante, faria todo o possível para protegê-la. E para ver aquele sorriso que eu tanto amava.
Eu estava dentro de um ovo quando me dei conta de mim pela primeira vez. Ouvia vozes distantes gritando coisas que não compreendia, até que fui parar em duas mãos. Mãos gentis, que me seguraram com firmeza. Algumas palavras foram proferidas e senti algo quente dentro de mim. Quando abri meus olhos pela primeira vez, vi um rosto se iluminar na minha frente. Essa se tornaria minha maior motivação para continuar em frente, não importando as dificuldades no caminho.
-Você é uma gracinha!
A voz dela não soava como os gritos que estava acostumado a ouvir. Eu nem sabia direito o que era uma gracinha, mas ela falou com tanto amor que eu não consegui evitar de me sentir bem com aquilo. Descobri mais tarde que minha dona raramente dizia palavras de ódio, apesar de se chatear mais do que eu gostaria. Raramente ela chorava também. Quando ela estava triste eu costumava me aproximar dela de maneira sutil. Logo ela me abraçava e começava a afagar minha cabeça. Era uma das melhores sensações, mas eu não conseguia me alegrar. Pelo contrário, meu peito doía. Queria que ela voltasse a sorrir aquele mesmo sorriso.
Às vezes ela me instruiu a ajudar em combate. No início, era complicado. Eu errava bastante e ela tinha que compensar minhas falhas. No entanto, nunca me repreendeu. Pelo contrário, me dava comida, água e carinho na medida certa, nem demais, nem de menos. Não tinha do que reclamar.
Depois de um tempo, percebi que seu semblante parecia preocupado com frequência. Começamos a frequentar alguns lugares mais perigosos e ela já não me instruiu a ajudar no combate, pelo contrário, eu devia fugir de monstros caso eles resolvessem se tornar agressivos e me atacar. E naqueles lugares, todos eles eram. Ficamos por lá um bom tempo e ela parecia sempre cansada, mas determinada. Descobri depois de um tempo que ela buscava algo. Uma pedra. Não entendi no início porque sua fixação por ela, mas descobri que era por mim.
-Talvez você se sinta desconfortável - ela começou, titubeante - mas vai dar tudo certo, e você vai ficar bem, eu prometo.
Ela realizou o ritual necessário e, mais uma vez, senti meu corpo se encher de calor. Quando o processo terminou, eu vi de novo. Aquele mesmo sorriso. Corri em direção a ela e ela me recebeu de braços abertos. Estava maior, me sentia mais forte e decidi que, daquele momento em diante, faria todo o possível para protegê-la. E para ver aquele sorriso que eu tanto amava.
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - O Pai
Quase esqueci de hoje de novo! A história de hoje vai ser baseada em uma ideia que eu tive para uma fanfic que estava escrevendo mas que parei. Talvez, quando tudo isso acabar, eu volte a escrever aquela fanfic. Hoje, no entanto, trago para vocês o que chamo de background dos personagens Lilian e Philip, dois irmãos que tiveram que se separar para conseguir resistir. São personagens principais de um dos vários jogos de Harvest Moon. Espero que gostem!
Era uma noite chuvosa e fria. Eu abraçava Lilian em meus braços enquanto ela tapava os ouvidos. Dava para ouvir os gritos vindos da cozinha, o estalo de um tapa, os passos que corriam para o quarto e os que seguiam, incertos, enquanto a pessoa que produzia os passos se escorava na parede para não cair.
-Volte aqui, agora!
Ele tentou abrir a porta do quarto e não conseguiu. Foi só quando ouvi os passos continuando que lembrei que não tinha trancado a porta do nosso quarto. Me repreendi e carreguei Lilian até o armário.
-Fique escondida aí, não saia até eu dizer que está tudo bem!
Ela só acenou com a cabeça. Fechei a porta e me preparei para o que estava por vir. A porta se abriu. A mão grande e pesada de meu pai me agarrou pela camisa e sem resistir, apanhei. Apanhei no lugar da minha mãe e da minha irmã. Quando ele finalmente parou, mais por estar bêbado demais para continuar do que por qualquer coisa, Lilian abriu a porta do armário.
-Eu te disse para esperar.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Lilian pegou minha mão e começou a chorar. Me ajudou a levantar e me carregou, da forma que pode, para fora de casa. Sentamos na varanda e ficamos observando a chuva. Eu pelo menos fiquei. Lilian deve ter saído em algum momento sem eu perceber, pois da mesma forma que não percebi sua saída, não percebi que tinha voltado até que ela encostou um pano úmido no meu lábio inferior. Ardeu. Ela afastou o pano, um pouco assustada, mas logo continuou limpando os machucados.
-Pode me avisar se começar a doer.
Acenei que sim com a cabeça e deixei que ela continuasse. O som da chuva era tranquilizador. Não queria pensar em nada, mas algo perturbador passava pela minha mente. Queria acabar com aquilo, e logo. Nossa mãe não aguentou muito tempo mais e nos abandonou. Cansado de apanhar, arrumei duas pequenas malas, uma para mim e uma para Lilian, e a levei para a casa de parentes. Eles não fizeram perguntas, mas foram bem claros que só poderiam abrigar um de nós.
-Tudo bem, cuidem da Lilian. Eu consigo me virar.
Lembro até hoje de como ela segurou minha mão e chorou. Como naquele dia chuvoso. Foi com dor no coração que me despedi dela com um abraço e parti para a cidade. Lá havia todo tipo de trabalho, mesmo que fosse para uma pessoa jovem como eu. Com certeza eu conseguiria arrumar algo. Talvez até conseguisse sobrar um pouco para mandar pra Lilian às vezes. Uma vez consegui economizar o suficiente para lhe mandar um presente de aniversário, mas ela me escreveu uma carta. "Prefiro que me mande cartas para saber como você está do que receber um presente". Não me arrependia do que tinha feito.
Passaram anos até o da que o vi de novo. Achava que talvez estivesse morto, mas não, ali estava ele. Parecia outro homem, bem vestido, segurando uma outra mulher pela mão e uma pequena criança no colo. Pensei em me aproximar e alertar sobre o perigo que aquele homem representava, no entanto, ele olhou para a criança e sorriu. E seu sorriso era como o de Lilian, quando eu ainda conseguia vê-la sorrindo. Cerrei os pulsos e virei as costas. Que direito ele tinha de recomeçar, depois de tudo que tínhamos passado? Pelo menos Lilian estava a salvo e nunca mais teria que ter medo. Naquele dia, escrevi uma carta e pedi que ela me mandasse uma foto. Sorrindo. Eu aguentaria qualquer coisa, contanto que ela pudesse ser feliz.
Era uma noite chuvosa e fria. Eu abraçava Lilian em meus braços enquanto ela tapava os ouvidos. Dava para ouvir os gritos vindos da cozinha, o estalo de um tapa, os passos que corriam para o quarto e os que seguiam, incertos, enquanto a pessoa que produzia os passos se escorava na parede para não cair.
-Volte aqui, agora!
Ele tentou abrir a porta do quarto e não conseguiu. Foi só quando ouvi os passos continuando que lembrei que não tinha trancado a porta do nosso quarto. Me repreendi e carreguei Lilian até o armário.
-Fique escondida aí, não saia até eu dizer que está tudo bem!
Ela só acenou com a cabeça. Fechei a porta e me preparei para o que estava por vir. A porta se abriu. A mão grande e pesada de meu pai me agarrou pela camisa e sem resistir, apanhei. Apanhei no lugar da minha mãe e da minha irmã. Quando ele finalmente parou, mais por estar bêbado demais para continuar do que por qualquer coisa, Lilian abriu a porta do armário.
-Eu te disse para esperar.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Lilian pegou minha mão e começou a chorar. Me ajudou a levantar e me carregou, da forma que pode, para fora de casa. Sentamos na varanda e ficamos observando a chuva. Eu pelo menos fiquei. Lilian deve ter saído em algum momento sem eu perceber, pois da mesma forma que não percebi sua saída, não percebi que tinha voltado até que ela encostou um pano úmido no meu lábio inferior. Ardeu. Ela afastou o pano, um pouco assustada, mas logo continuou limpando os machucados.
-Pode me avisar se começar a doer.
Acenei que sim com a cabeça e deixei que ela continuasse. O som da chuva era tranquilizador. Não queria pensar em nada, mas algo perturbador passava pela minha mente. Queria acabar com aquilo, e logo. Nossa mãe não aguentou muito tempo mais e nos abandonou. Cansado de apanhar, arrumei duas pequenas malas, uma para mim e uma para Lilian, e a levei para a casa de parentes. Eles não fizeram perguntas, mas foram bem claros que só poderiam abrigar um de nós.
-Tudo bem, cuidem da Lilian. Eu consigo me virar.
Lembro até hoje de como ela segurou minha mão e chorou. Como naquele dia chuvoso. Foi com dor no coração que me despedi dela com um abraço e parti para a cidade. Lá havia todo tipo de trabalho, mesmo que fosse para uma pessoa jovem como eu. Com certeza eu conseguiria arrumar algo. Talvez até conseguisse sobrar um pouco para mandar pra Lilian às vezes. Uma vez consegui economizar o suficiente para lhe mandar um presente de aniversário, mas ela me escreveu uma carta. "Prefiro que me mande cartas para saber como você está do que receber um presente". Não me arrependia do que tinha feito.
Passaram anos até o da que o vi de novo. Achava que talvez estivesse morto, mas não, ali estava ele. Parecia outro homem, bem vestido, segurando uma outra mulher pela mão e uma pequena criança no colo. Pensei em me aproximar e alertar sobre o perigo que aquele homem representava, no entanto, ele olhou para a criança e sorriu. E seu sorriso era como o de Lilian, quando eu ainda conseguia vê-la sorrindo. Cerrei os pulsos e virei as costas. Que direito ele tinha de recomeçar, depois de tudo que tínhamos passado? Pelo menos Lilian estava a salvo e nunca mais teria que ter medo. Naquele dia, escrevi uma carta e pedi que ela me mandasse uma foto. Sorrindo. Eu aguentaria qualquer coisa, contanto que ela pudesse ser feliz.
domingo, 8 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - O Afogamento
Primeiro quero me desculpar por não ter escrito ontem, mas estava fora o dia todo, literalmente. Hoje vou escrever uma história um pouco dramática, baseada em fatos que me foram contados e que podem ou não ser contados, tudo vai depender da minha (falta de) memória.
Nossa família estava reunida em uma colônia de férias e o lugar estava abarrotado de gente. A piscina costumava estar cheia durante todo o período em que estava aberta ao público, então às vezes preferíamos fazer a pequena caminhada que nos separava da praia. Ela também era lotada, mas pelo menos o único lugar em que tínhamos que disputar espaço era na areia. Dentro da água, éramos livres. Naquele dia, no entanto, tínhamos decidido usar a piscina, pois ouvimos de um caso de um garoto que quase tinha se afogado na praia, perto das rochas. Supostamente estava brincando com os primos e não percebeu que já não dava pé. A piscina, por mais lotada que fosse, não tinha o risco de não dar pé. Ajudei as crianças a se vestirem e rumamos para a piscina. Estendi a toalha na beirada, em um cantinho que ainda não estava ocupado, e fiquei observando. E foi enquanto observava um dos meus filhos nadar que notei uma criança. Especificamente a posição em que ela se encontrava.
-Amor, vem aqui!
Quando meu marido se aproximou, um pouco assustado com o meu tom de voz, olhou para onde eu estava apontando. Ele deu um suspiro aliviado quando percebeu que não era um dos nossos filhos, mas logo ficou com o olhar tão atônito quanto o meu.
-Está se afogando?
-Parece que está, não parece?
O garoto em questão estava com uma boia e provavelmente, por esse motivo, os pais não tivessem notado que, apesar da bóia, a parte superior do corpo do garoto estava curvada para a frente, seu rosto parecia estar caído na água e ele chacoalhava os braços. Para mim, parecia uma tentativa desesperada de tentar retomar o equilíbrio perdido e conseguir respirar novamente. Não precisei dizer mais nada. Meu marido logo arrancou a camisa e se jogou na piscina, indo de encontro ao garoto. Primeiro o levantou e depois, o puxou para fora da piscina. O menino tossiu algumas vezes e começou a respirar de forma forte, ofegante. Para mim não haviam dúvidas de que estava se afogando. Notei que dois adultos se aproximaram do meu marido e começaram a conversar com ele. Resolvi ir ver do que se tratava e me surpreendi.
-O senhor está é sendo um intrometido. Cuide de sua vida!
Pegaram o garoto pelo braço e começaram a arrastá-lo para longe. O menino ainda olhou pra trás e acenou um tchau. Quando perguntei para meu marido o que tinha acontecido ele me explicou que os pais o viram tirando o menino da água e o acusaram de estragar a brincadeira.
-Mas ele estava se afogando, não estava?
Meu marido deu de ombros. Não sabia se ficava brava com a atitude dos pais ou se me preocupava mais com o garoto. Instintivamente, olhei para meus garotos. Estavam brincando animadamente, jogando água um no outro. Aquilo aliviou um pouco da minha raiva, mas não da minha preocupação. Então procurei a gerência e relatei o ocorrido. No dia seguinte, não reparei mudanças, nem no seguinte. Apenas no terceiro dia notei, finalmente, que haviam colocado um rapaz com colete, que ficava andando em volta da piscina nos horários mais cheios. Soube mais tarde que ainda naquele ano, uma pessoa realmente quase se afogou depois de entrar bêbada na piscina. Com isso, restringiram a entrada de pessoas com alimentos. Muita gente reclamou mas eu acabei gostando da mudança. Voltamos naquela colônia outras vezes e toda vez eu acabava me lembrando do garotinho. O mínimo que eu esperava era que seus pais tivessem se tornado mais observadores depois daquilo. Quando contava sobre o que tinha acontecido para outras pessoas, todos diziam que ele provavelmente não estava se afogando e que, provavelmente, eu e meu marido que tínhamos sido desesperados. Prefiro pensar que salvamos a vida dele.
Nossa família estava reunida em uma colônia de férias e o lugar estava abarrotado de gente. A piscina costumava estar cheia durante todo o período em que estava aberta ao público, então às vezes preferíamos fazer a pequena caminhada que nos separava da praia. Ela também era lotada, mas pelo menos o único lugar em que tínhamos que disputar espaço era na areia. Dentro da água, éramos livres. Naquele dia, no entanto, tínhamos decidido usar a piscina, pois ouvimos de um caso de um garoto que quase tinha se afogado na praia, perto das rochas. Supostamente estava brincando com os primos e não percebeu que já não dava pé. A piscina, por mais lotada que fosse, não tinha o risco de não dar pé. Ajudei as crianças a se vestirem e rumamos para a piscina. Estendi a toalha na beirada, em um cantinho que ainda não estava ocupado, e fiquei observando. E foi enquanto observava um dos meus filhos nadar que notei uma criança. Especificamente a posição em que ela se encontrava.
-Amor, vem aqui!
Quando meu marido se aproximou, um pouco assustado com o meu tom de voz, olhou para onde eu estava apontando. Ele deu um suspiro aliviado quando percebeu que não era um dos nossos filhos, mas logo ficou com o olhar tão atônito quanto o meu.
-Está se afogando?
-Parece que está, não parece?
O garoto em questão estava com uma boia e provavelmente, por esse motivo, os pais não tivessem notado que, apesar da bóia, a parte superior do corpo do garoto estava curvada para a frente, seu rosto parecia estar caído na água e ele chacoalhava os braços. Para mim, parecia uma tentativa desesperada de tentar retomar o equilíbrio perdido e conseguir respirar novamente. Não precisei dizer mais nada. Meu marido logo arrancou a camisa e se jogou na piscina, indo de encontro ao garoto. Primeiro o levantou e depois, o puxou para fora da piscina. O menino tossiu algumas vezes e começou a respirar de forma forte, ofegante. Para mim não haviam dúvidas de que estava se afogando. Notei que dois adultos se aproximaram do meu marido e começaram a conversar com ele. Resolvi ir ver do que se tratava e me surpreendi.
-O senhor está é sendo um intrometido. Cuide de sua vida!
Pegaram o garoto pelo braço e começaram a arrastá-lo para longe. O menino ainda olhou pra trás e acenou um tchau. Quando perguntei para meu marido o que tinha acontecido ele me explicou que os pais o viram tirando o menino da água e o acusaram de estragar a brincadeira.
-Mas ele estava se afogando, não estava?
Meu marido deu de ombros. Não sabia se ficava brava com a atitude dos pais ou se me preocupava mais com o garoto. Instintivamente, olhei para meus garotos. Estavam brincando animadamente, jogando água um no outro. Aquilo aliviou um pouco da minha raiva, mas não da minha preocupação. Então procurei a gerência e relatei o ocorrido. No dia seguinte, não reparei mudanças, nem no seguinte. Apenas no terceiro dia notei, finalmente, que haviam colocado um rapaz com colete, que ficava andando em volta da piscina nos horários mais cheios. Soube mais tarde que ainda naquele ano, uma pessoa realmente quase se afogou depois de entrar bêbada na piscina. Com isso, restringiram a entrada de pessoas com alimentos. Muita gente reclamou mas eu acabei gostando da mudança. Voltamos naquela colônia outras vezes e toda vez eu acabava me lembrando do garotinho. O mínimo que eu esperava era que seus pais tivessem se tornado mais observadores depois daquilo. Quando contava sobre o que tinha acontecido para outras pessoas, todos diziam que ele provavelmente não estava se afogando e que, provavelmente, eu e meu marido que tínhamos sido desesperados. Prefiro pensar que salvamos a vida dele.
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - O Tesouro
Hoje vou escrever sobre algo que vai me fazer chorar enquanto escrevo e que pode não ser minha realidade para toda a eternidade mas com certeza é minha realidade neste exato momento. Leia por sua própria conta em risco. Classificado como Gaveta por razões óbvias.
Desde criança tive muitas paixonites. Algumas vezes, havia mais que uma paixonite por vez, tamanho era meu coração. Não me satisfazia amar só um, tinha que ter mais. Então o tempo foi passando e fui amadurecendo. Meu primeiro amor de verdade foi aos 25 anos, por um homem que morava em tão, tão distante que eu não sabia na época mas soube depois que, quando terminasse, eu nunca mais o encontraria na minha vida. Foi um término muxoxo, daqueles que te deixam sem reação se você é uma pessoa como eu. "Tem coisas que chegam ao fim, e nós é uma delas". Doeu, mas eu não percebi que doeu. Eu fiquei chocada. Falava do ocorrido sem parar, mas não ouvia o que eu mesma estava dizendo. E essa era a chave para sair daquela situação. "Você escutou o que acabou de dizer?" Não, não tinha ouvido, nem prestado atenção. Passei a prestar atenção no que eu digo. Não passei a pensar no que digo, veja bem, passei a prestar atenção nas palavras que estava dizendo ou que iam ser proferidas. Supostamente eu estava dando as respostas para meus próprios problemas. Naquele caso, eu estava tão acostumada a sentir, sentir e sentir sem parar que, naquele momento, em que tinha perdido a pessoa que eu mais tinha amado, senti que tinha sido privada daquilo que havia feito por toda a vida; sentir.
Isso foi há alguns anos. Conheci outras pessoas, me apaixonei de novo algumas vezes, até cheguei a sentir que podia ter um futuro com dois deles. Tudo em vão. Até o dia que conheci um garoto que resolveu se apaixonar por mim e me conquistar. Não são todas as pessoas que te ajudam, que fazem algo por você, que te querem ver feliz. Ele fazia isso por mim naquela época, e era bom. Um dia ele estava me falando que gostava de alguém e eu resolvi apoiá-lo a se confessar. Ele relutou e eu resolvi perguntar se era eu. Já perdi a conta de quantas vezes contei essa história, mas eu realmente fiquei feliz quando ele disse que sim. Minhas atitudes seguintes foram cortar quaisquer laços afetivos que tinha com outras paixonites. Ele me conheceu quando eu jogava com todo mundo, mas por conta do ciúmes dele, passei a não jogar com mais ninguém. Isso atrapalhou ele também, pois eu queria passar tempo com ele, então tudo que fazíamos juntos era sozinhos, eu e ele. E ele é um moleque que precisa de amigos ao redor. Enquanto ele estava em casa, desocupado, tudo estava às mil maravilhas. No entanto ele começou a trabalhar e as coisas mudaram drásticamente em menos de um mês. Não sei quais são as razões dele, mas ele resolveu abrir mão do tesouro que tinha. Pelo que? Bem, eu o vejo jogando mais com os amigos e falando mais com as pessoas. Quando fazíamos as coisas juntos ele nunca falava comigo. É triste, mas parece que, pra ele, se livrar de mim foi a melhor opção. Já pra mim, está sendo sofrido. Dolorido. Quase insuportável. Tento falar com ele mas ele me dá a entender que nada mais tem importância. É como se eu fosse um tesouro e ele tivesse resolvido enterrar esse tesouro. "Fique aí". Talvez um dia ele lembre que teve esse tesouro e sinta falta. A verdade é que eu não sei o que fazer da minha vida nesse momento. Nem o que fazer com todos esses sentimentos que estou sentindo. Me isolei por ele. Fiz tudo que podia. Gastei o que tinha e o que não tinha para estar com ele. E agora, me vejo sendo deixada de lado por um motivo que não me parece claro, por razões sem razão. Ele quer e pronto. Se eu tento argumentar ele diz que parece que quando começamos a namorar parece que ele assinou um termo que o impede de terminar, se esquecendo que foi ele que insistiu nesse relacionamento. Hoje quem insiste sou eu, mas ele não cede como eu cedi. No fim do mês vai ser meu aniversário e não espero que ele se lembre para me desejar feliz aniversário. Completamos dois anos juntos que serão jogados no lixo. Investi tempo e dinheiro em uma pessoa que, agora que finalmente podia me retornar um pouco do tanto que fiz por ele, preferiu terminar. Tempo e dinheiro jogados fora, pois eu fui descartada assim que ele passou a ter condições de poder me retribuir. Talvez retribuir não estivesse nos planos dele desde o início. Talvez eu tenha realmente estragado ele tanto ao ponto que o que eu fiz por ele, para ele, não tenha passado da minha obrigação. Afinal, quem queria estar junto era eu, quem queria ver ele feliz era eu. Faz tempo que não consigo nada disso então talvez seja o melhor cada um ir pra um lado. Não estou nem um pouco feliz com isso, mas tenho que aceitar, pois não é como se tivessem me dado qualquer outra opção. Existe a de "continuarmos amigos", mas desde que começamos a namorar ele não é mais o amigo que eu tinha quando o conheci de fato e duvido muito que ele consiga voltar a ser como era. Sinto falta da pessoa que se importava. Sinto falta da projeção que criei dele, que projetei nele e que veio ao chão, talvez tarde demais. Ainda o amo, mas ele escolheu se desfazer de mim. Amanhã será o casamento da tia dele. Fui convidada e vou. Ele disse, mesmo enquanto terminava, que queria que eu fosse, então eu vou. Sem a menor ideia do que esperar desse dia. Serei um barco à deriva em um mar de gente que não sabe como estou me sentindo. Será um dia de alegria para todos, mas não pra mim. O tesouro ficará escondido, tentando não chamar a atenção.
Desde criança tive muitas paixonites. Algumas vezes, havia mais que uma paixonite por vez, tamanho era meu coração. Não me satisfazia amar só um, tinha que ter mais. Então o tempo foi passando e fui amadurecendo. Meu primeiro amor de verdade foi aos 25 anos, por um homem que morava em tão, tão distante que eu não sabia na época mas soube depois que, quando terminasse, eu nunca mais o encontraria na minha vida. Foi um término muxoxo, daqueles que te deixam sem reação se você é uma pessoa como eu. "Tem coisas que chegam ao fim, e nós é uma delas". Doeu, mas eu não percebi que doeu. Eu fiquei chocada. Falava do ocorrido sem parar, mas não ouvia o que eu mesma estava dizendo. E essa era a chave para sair daquela situação. "Você escutou o que acabou de dizer?" Não, não tinha ouvido, nem prestado atenção. Passei a prestar atenção no que eu digo. Não passei a pensar no que digo, veja bem, passei a prestar atenção nas palavras que estava dizendo ou que iam ser proferidas. Supostamente eu estava dando as respostas para meus próprios problemas. Naquele caso, eu estava tão acostumada a sentir, sentir e sentir sem parar que, naquele momento, em que tinha perdido a pessoa que eu mais tinha amado, senti que tinha sido privada daquilo que havia feito por toda a vida; sentir.
Isso foi há alguns anos. Conheci outras pessoas, me apaixonei de novo algumas vezes, até cheguei a sentir que podia ter um futuro com dois deles. Tudo em vão. Até o dia que conheci um garoto que resolveu se apaixonar por mim e me conquistar. Não são todas as pessoas que te ajudam, que fazem algo por você, que te querem ver feliz. Ele fazia isso por mim naquela época, e era bom. Um dia ele estava me falando que gostava de alguém e eu resolvi apoiá-lo a se confessar. Ele relutou e eu resolvi perguntar se era eu. Já perdi a conta de quantas vezes contei essa história, mas eu realmente fiquei feliz quando ele disse que sim. Minhas atitudes seguintes foram cortar quaisquer laços afetivos que tinha com outras paixonites. Ele me conheceu quando eu jogava com todo mundo, mas por conta do ciúmes dele, passei a não jogar com mais ninguém. Isso atrapalhou ele também, pois eu queria passar tempo com ele, então tudo que fazíamos juntos era sozinhos, eu e ele. E ele é um moleque que precisa de amigos ao redor. Enquanto ele estava em casa, desocupado, tudo estava às mil maravilhas. No entanto ele começou a trabalhar e as coisas mudaram drásticamente em menos de um mês. Não sei quais são as razões dele, mas ele resolveu abrir mão do tesouro que tinha. Pelo que? Bem, eu o vejo jogando mais com os amigos e falando mais com as pessoas. Quando fazíamos as coisas juntos ele nunca falava comigo. É triste, mas parece que, pra ele, se livrar de mim foi a melhor opção. Já pra mim, está sendo sofrido. Dolorido. Quase insuportável. Tento falar com ele mas ele me dá a entender que nada mais tem importância. É como se eu fosse um tesouro e ele tivesse resolvido enterrar esse tesouro. "Fique aí". Talvez um dia ele lembre que teve esse tesouro e sinta falta. A verdade é que eu não sei o que fazer da minha vida nesse momento. Nem o que fazer com todos esses sentimentos que estou sentindo. Me isolei por ele. Fiz tudo que podia. Gastei o que tinha e o que não tinha para estar com ele. E agora, me vejo sendo deixada de lado por um motivo que não me parece claro, por razões sem razão. Ele quer e pronto. Se eu tento argumentar ele diz que parece que quando começamos a namorar parece que ele assinou um termo que o impede de terminar, se esquecendo que foi ele que insistiu nesse relacionamento. Hoje quem insiste sou eu, mas ele não cede como eu cedi. No fim do mês vai ser meu aniversário e não espero que ele se lembre para me desejar feliz aniversário. Completamos dois anos juntos que serão jogados no lixo. Investi tempo e dinheiro em uma pessoa que, agora que finalmente podia me retornar um pouco do tanto que fiz por ele, preferiu terminar. Tempo e dinheiro jogados fora, pois eu fui descartada assim que ele passou a ter condições de poder me retribuir. Talvez retribuir não estivesse nos planos dele desde o início. Talvez eu tenha realmente estragado ele tanto ao ponto que o que eu fiz por ele, para ele, não tenha passado da minha obrigação. Afinal, quem queria estar junto era eu, quem queria ver ele feliz era eu. Faz tempo que não consigo nada disso então talvez seja o melhor cada um ir pra um lado. Não estou nem um pouco feliz com isso, mas tenho que aceitar, pois não é como se tivessem me dado qualquer outra opção. Existe a de "continuarmos amigos", mas desde que começamos a namorar ele não é mais o amigo que eu tinha quando o conheci de fato e duvido muito que ele consiga voltar a ser como era. Sinto falta da pessoa que se importava. Sinto falta da projeção que criei dele, que projetei nele e que veio ao chão, talvez tarde demais. Ainda o amo, mas ele escolheu se desfazer de mim. Amanhã será o casamento da tia dele. Fui convidada e vou. Ele disse, mesmo enquanto terminava, que queria que eu fosse, então eu vou. Sem a menor ideia do que esperar desse dia. Serei um barco à deriva em um mar de gente que não sabe como estou me sentindo. Será um dia de alegria para todos, mas não pra mim. O tesouro ficará escondido, tentando não chamar a atenção.
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Desafio dos 30 Dias - O Livro
Hoje teremos outra fanfic! Desculpem, eu já joguei muitos jogos, então a maioria dos temas que aparece acaba me remetendo a algum jogo que já joguei. O de hoje chama Avalon Code. Espero do fundo do meu coração que vocês gostem!
Eu não gostava de lutar. Se pudesse, viveria pacificamente pelo resto de meus dias, fazendo qualquer coisa que precisasse ser feita. Não era como se alguém fosse sentir minha falta. Essa era minha realidade, que mudou drasticamente no dia que recebi aquele livro. Um livro que eu devia usar para registrar tudo que existe em meu mundo, pois ele teria que começar de novo. Não aceitei bem a ideia no princípio, mas como as engrenagens de um relógio, tudo começou a se mover, lenta mas certamente, em direção ao final profetizado. Todos foram devidamente registrados. Desde pessoas, animais, plantas a lugares. Conheci gente que nunca, nem em meus sonhos mais loucos, pensaria em conhecer. Me apaixonei e quis lutar contra o destino. Mas não me foi dada a escolha, o livro escolheria sozinho quem era digno de continuar no novo mundo. E como num passe de mágica, tudo acabou. Sem aviso, sem catástrofes, sem dor. Nós, os escolhidos, devemos construir um mundo novo do zero. Muita gente que está aqui é merecedora, mas sinto falta de algumas pessoas que não estão. Parece que eles não lembram do que aconteceu em nosso mundo, é como se sempre tivessem existido apenas aqui. Estou escrevendo essas memórias antes que eu, também, esqueça daquele mundo. Dos dias em que eu lutei para tentar salvar um mundo que estava condenado desde o início. Este também está. Percebo agora que isso é um ciclo. Não sei quanto tempo levará até que esse mundo também precise começar de novo, mas quero deixar claro para meu sucessor: não nade contra a maré. O livro dará um jeito das coisas acontecerem como devem, com ou sem a sua ajuda. É melhor tentar reunir tudo que você considera precioso nele, para que seu novo mundo não te seja tão penoso, pois certamente ele virá. Nós estamos no livro, logo, somos parte dele. Mesmo que não se sinta capaz, ele te tornará capaz. Acredite. Confie. Lute.
Eu não gostava de lutar. Se pudesse, viveria pacificamente pelo resto de meus dias, fazendo qualquer coisa que precisasse ser feita. Não era como se alguém fosse sentir minha falta. Essa era minha realidade, que mudou drasticamente no dia que recebi aquele livro. Um livro que eu devia usar para registrar tudo que existe em meu mundo, pois ele teria que começar de novo. Não aceitei bem a ideia no princípio, mas como as engrenagens de um relógio, tudo começou a se mover, lenta mas certamente, em direção ao final profetizado. Todos foram devidamente registrados. Desde pessoas, animais, plantas a lugares. Conheci gente que nunca, nem em meus sonhos mais loucos, pensaria em conhecer. Me apaixonei e quis lutar contra o destino. Mas não me foi dada a escolha, o livro escolheria sozinho quem era digno de continuar no novo mundo. E como num passe de mágica, tudo acabou. Sem aviso, sem catástrofes, sem dor. Nós, os escolhidos, devemos construir um mundo novo do zero. Muita gente que está aqui é merecedora, mas sinto falta de algumas pessoas que não estão. Parece que eles não lembram do que aconteceu em nosso mundo, é como se sempre tivessem existido apenas aqui. Estou escrevendo essas memórias antes que eu, também, esqueça daquele mundo. Dos dias em que eu lutei para tentar salvar um mundo que estava condenado desde o início. Este também está. Percebo agora que isso é um ciclo. Não sei quanto tempo levará até que esse mundo também precise começar de novo, mas quero deixar claro para meu sucessor: não nade contra a maré. O livro dará um jeito das coisas acontecerem como devem, com ou sem a sua ajuda. É melhor tentar reunir tudo que você considera precioso nele, para que seu novo mundo não te seja tão penoso, pois certamente ele virá. Nós estamos no livro, logo, somos parte dele. Mesmo que não se sinta capaz, ele te tornará capaz. Acredite. Confie. Lute.
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